Diversidade, em todos os sentidos

Arquivo para a categoria ‘Preconceito’

Rachel Sheherazade: o eco reacionário e fundamentalista na TV

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O jornalismo é um retrato da sociedade, e indubitavelmente é palco de disputas ideológicas entre correntes políticas e filosóficas, entranhadas sob a máscara da ‘imparcialidade’. Neste palco, uma personagem vem ganhando destaque como representante de vozes reacionárias, conservadoras e fundamentalistas religiosas: a jornalista Rachel Sheherezade, âncora do telejornal SBT Brasil.

Ela tornou-se célebre nacionalmente por um comentário onde criticava o carnaval da Paraíba, estado onde nasceu e iniciou sua carreira como jornalista. Aos 39 anos, deixou seu estado natal para assumir a bancada do principal telejornal do SBT e lá, continuou a se posicionar de forma dura sobre diversos pontos, sempre deixando claro suas visões de mundo conservadoras, usadas ad nauseam por reacionários por todo o Brasil.

Num estado democrático de direito, não há problema nenhum que Rachel expresse seus pontos de vista, por mais infelizes que a maioria deles seja. O problema é que a jornalista utiliza a bancada do telejornal para reforçar estereótipos e para atacar princípios constitucionais como a laicidade do estado. Sobre a decisão da Justiça Federal de São Paulo em negar pedido do Ministério Público Federal para obrigar a União e o Banco Central a retirada expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, Rachel despejou suas falácias em relação ao tema, dizendo que o ‘cristianismo está sendo perseguido pelos defensores do estado laico, que voltaram sua ira contra a minúscula citação nas notas’. Ignorando a história da civilização, acusou os defensores da laicidade do estado de ingratidão com a doutrina que, segundo ela, inspirou os valores, a cultura e a própria constituição federal, esquecendo que o estado não possui religião e não expressa religiosidade, sendo esta de foro íntimo dos cidadãos.

Como esperado, após a primeira incursão no campo da religião, uma especialidade da jornalista, Sheherezade voltou a repetir as mesmas falácias esquizofrênicas de perseguição religiosa contra cristãos, em um país onde mais de 90% da população professa a mesma tendência religiosa, quando da decisão do Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que determinou a retirada de crucifixos e símbolos religiosos dos prédios da Justiça gaúcha. Vestida de um coitadismo ímpar, ela engrossou o coro de fundamentalistas religiosos, classificando a decisão acertada do TJ-RS de ‘intolerância religiosa’, questionando a laicidade do estado com o argumento inacreditável de que ‘a constituição foi promulgada sob a proteção de deus’, ignorando que a frase consta APENAS no preâmbulo da Constituição, e que na prática, vale tanto quando o ‘volte sempre’ escrito em saquinho de padaria. Claro, ela ainda fez questão de ressaltar que 90% dos brasileiros são evangélicos ou católicos, defecando em cima das minorias religiosas, e até mesmo dos ateus, uma suposta supremacia cristã aparentemente inquestionável, de acordo com a moça.

Finalmente, para surfar na polêmica mais recente, Rachel Sheherezade rasgou o resto da fantasia democrática que vestia, ao defender a manutenção do deputado e pastor Marco Feliciano na presidência de Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Começando seu editorial com o coitadismo já demonstrado anteriormente, ela evoca que a liberdade de crença é um direito constitucional, e que não podemos confundir o pastor Marco Feliciano com o deputado. Como acredito que Rachel tenha aprendido pesquisa de pauta durante sua carreira, só posso crer que ela é mal intencionada ao ignorar que quem confunde as duas atribuições é o próprio deputado, inclusive ao tentar explicar porque paga pastores de sua igreja como ‘assessores parlamentares’, que não dão expediente em Brasília e nem em nenhum escritório político.

Na sequencia de falácias, que parece ser uma marca da âncora do SBT, ela faz questão de reafirmar que Marco Feliciano foi eleito democraticamente como deputado. E quem questionou o mandato (cheio de acusações de crimes) de Feliciano enquanto deputado? Novamente, uma pesquisa de pauta, mesmo que simples, apontaria que os protestos contra ele, classificados por Rachel como ‘gritaria’, são para que ele deixe a presidência da CDHM, e não seu mandato como deputado. E que fique claro para a jornalista que Feliciano não foi ‘democraticamente eleito’, mas estrategicamente colocado no cargo com a complacência de parlamentares do PT, PMDB, PSDB, PSB e DEM, dando 10 cargos da comissão ao PSC, ignorando os critérios de representatividade regimental dos partidos nas comissões. Foi apenas um acordo político, e não uma ‘eleição democrática’.

Pra fechar com chave de ouro, a jornalista ainda tem a pachorra de dizer que não se pode confundir as OPINIÕES PESSOAIS, por mais polêmicas que sejam, de Marco Feliciano com sua atuação como parlamentar. E desde quando essa separação é feita para qualquer ocupante de cargo público no Brasil? Quando um parlamentar dá entrevista, participa de um evento público ou emite QUALQUER opinião, quem está falando é o PARLAMENTAR, além do cidadão. Não há botão que alterne o político e o cidadão, e este, quando eleito, está 24 horas por dia investido do cargo para qual foi empossado. As opiniões de Feliciano, Sheherezade, não são ‘polêmicas’: são homofóbicas, machistas, misóginas, racistas, intolerantes com religiões minoritárias, reforçam estereótipos e preconceitos contra estas minorias, dando base para todo tipo de ação violenta (física ou psicológica) contra elas.

A defesa ensandecida por fundamentalistas religiosos como Marco Feliciano tem agradado reacionários de todos os campos, como o colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, e o também pastor (e igualmente homofóbico) Silas Malafaia. Em Sheherazade, os reacionários de toda sorte encontram o eco para suas ideologias tortas e segregacionistas, que raramente encontrariam em outros jornalistas na grande imprensa (ao menos, não de forma tão explícita).

Democraticamente, não torço que Sheherezade saia do ar, pois acredito que ela realmente seja o eco de uma parcela da sociedade que, de uma forma ou outra, vai encontrar um canal para dar vazão ao seu chorume intolerante. Só espero que, amanhã e depois, os sons deste eco, carregado de moralismo e discriminação seja cada vez mais difícil de escutar em meio a gritos e cantos que louvem a igualdade, a diversidade e o amor incondicional a humanidade.

<<< Atualização >>>

No dia em que posto este texto, a jornalista Rachel Sheherezade nos brinda com mais um editoral cheio de conservadorismo religioso e poucos argumentos contra o aborto. Sem apontar um motivo plausível para que o aborto de fetos até 12 semanas não seja permitido, ela apela para todo o tipo de falácia: desde dizer que os médicos estariam propondo a mudança por interesses financeiros até tendo a coragem de comparar mulheres a NINHOS DE PÁSSAROS! É, Sheherezade realmente estudou a fundo as cartilhas conservadores, reacionárias e contra as liberdades da minorias.

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Indigência intelectual, ‘homossexuais criminosos’ e a imprensa homofóbica

Na tentativa desesperada de alguns detratores dos direitos LGBT em desqualificar toda uma gama de pessoas que tem em comum apenas seus afetos dissonantes da sociedade heteronormativa, vale qualquer arma. Alguns preferem a velha e boa torção de declarações alheias, como dizer que um deputado ‘fere o estado laico’, ao dizer, em entrevista, que foi eleito pelos Orixás. Outros usam a mentira mesmo, atribuindo declarações que nunca foram feitas, criando pretensões nunca aspiradas pelos movimentos sociais e fazendo leituras tortas dos artigos de leis que garantem a cidadania de minorias. Mas uma categoria bem específica de homofóbico é o que tenta atribuir a homossexualidade características, delitos e estereótipos que em nada tem a ver com a sexualidade em si.

Durante este semana, alguns perfis conhecidos de fundamentalistas religiosos nas redes sociais fizeram um esforço para tentar ligar a orientação sexual de um casal gay ao fato deste casal ter agredido e torturado o filho adotivo, de cinco anos. Exceto em casos de agressão motivada por orientação sexual ou identidade de gênero, nenhuma destas características é relevante para o contexto de matérias jornalísticas, e é neste ponto que grande parte da imprensa colabora com o reforço de estereótipos negativos de homossexuais.

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Ora, o que a orientação sexual do casal colabora no contexto da reportagem? O mesmo tipo de agressão e violência doméstica contra crianças não acontece com casais heteros cotidianamente? Dizer que o casal adotivo da criança tem alguma outra função no texto, além de tentar reforçar os estereótipos de que casais homossexuais são menos capazes de criar crianças do que casais heterossexuais? Se tivesse, outras centenas de matérias sobre abuso sexual ou violência contra crianças também deveria deixar claro, no título, que os agressores tratam-se de heterossexuais.

Munidos de matérias que enfatizam a orientação sexual de agressores de crianças, homofóbicos de toda sorte ecoam a elação óbvia que a imprensa entrega mastigada: a criança só foi agredida porque o casal era gay, ignorando o número assustadoramente maior de heterossexuais que comentem o mesmo crime.

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O problema desta elação preconceituosa, além de ser falsa, é que ela abre o precedente para que possamos fazer o mesmo tipo de correlação a crimes cometidos por pastores, por exemplo. Posso dizer que todos os evangélicos são pedófilos porque alguns pastores abusaram sexualmente de jovens (aqui, aqui e aqui)? Ou posso então afirmar que pastores evangélicos são moralmente inferiores, já que alguns deles (aqui, aqui e aqui) cometeram crimes? Devo julgar todos os pastores da mesma forma que um acusado de estelionato, de usar mandato público em detrimento de sua igreja e por pedir a senha do cartão de crédito de um fiel? Por motivos óbvios, claro que não!

Homens, mulheres, brancos negros, indígenas, gays, travestis, heteros, cristãos, muçulmanos, umbandistas, jornalistas, psicólogos, médicos, pastores, jovens e idosos cometem crimes, mas o simples fato de pertencer a um destes grupos ou a qualquer outro não é um fator relevante para alguém cometer um crime. Não há determinismo em um crime, mas sim uma série de fatores diferentes que antecedem a sua execução.

Tentar usar qualquer característica de um criminoso como fator determinante para o crime em si serviu para discriminar negros, indígenas, religiões minoritárias, nordestinos, ciganos, moradores dos subúrbios e das favelas, além de homossexuais, e para justificar qualquer violência contra esses grupos, como negar direitos e cidadania. São preconceitos abjetos como estes que criaram estereótipos deformados, e que escavaram ainda mais o abismo entre as minorias e o resto da sociedade no Brasil. Cabe a todos nós tapar este abismo com dignidade, humanidade e verdade.

João Pessoa recebe ato de protesto contra o deputado federal Marco Feliciano a frente da Comissão de Direitos Humanos

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João Pessoa é uma das dezenas de cidades brasileiras que recebe neste sábado (16) uma manifestação contra a eleição do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. A concentração do ato acontece a partir das 10h, no Parque Sólon de Lucena (Lagoa), ponto de partida dos manifestantes, que se deslocarão até Praça Rio Branco, no centro da cidade. A manifestação conta com o apoio de quase quarenta entidades, incluindo partidos políticos, movimentos sociais, órgãos públicos e entidades de classe.

Em carta, as entidades repudiaram a eleição de Marco Feliciano por entender que suas declarações ferem os princípios da laicidade do Estado Republicano e vão de encontro a Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Federal, reforçando e estimulando preconceitos e a intolerância contra grupos sociais, raciais e sexuais historicamente discriminados e marginalizados. Feliciano ganhou destaque nacional com declarações de cunho homofóbico e racista, chegando a dizer que ‘africanos eram descendentes amaldiçoados de Noé’ e que a AIDS é uma doença gay, além de se opor radicalmente à igualdade de direitos aos cidadãos LGBT.

As entidades que subscrevem a carta exigem que o Poder Legislativo reverta a escolha, destituindo o Deputado Feliciano desta Comissão, sob risco de, ao dificultar a defesa dos direitos humanos, comprometer o desenvolvimento do nosso Estado Democrático de Direito e frustrar a expectativa que toda a sociedade brasileira deposita nesta instituição. “Como um parlamentar com este perfil pode garantir que esta Comissão defenderá os direitos que o mesmo está violando? Como uma liderança religiosa, oriunda de uma crença que prega a igualdade e a tolerância, se expressa de forma contrária à fundamentação deste credo religioso?”, questiona a carta.

De acordo com o presidente do Movimento do Espírito Lilás, Renan Palmeira, uma das entidades que organiza o protesto, o evento expressa a unidade dos movimentos em direitos humanos e a luta pela consolidação dos ideais desses direitos. “Buscamos dizer, com centenas de vozes diferentes, ‘fora Marco Feliciano’, que é um fundamentalista religioso, conservador, cujas atitudes vão de encontro aos ideais dos direitos humanos e do estado laico”, disse Renan.

Subscrevem a carta o Movimento do Espírito Lilás (MEL), Coletivo Feminista (CUNHÃ), Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Marcha Mundial de Mulheres, Centro de Cultura Afro Brasileira Omidewa, Centro de Direitos Humanos da UFPB, Articulação de Juventude Negra da Paraíba, Ateliê Multicultural Elionai Gomes, União Brasileira de Mulheres (UMB/PB), Coletivo Desintoca, Consulta Popular, Frente Feminista, NEP – Flor de Mandacaru, Associação de Livres Pensadores da Paraíba (ALPP), Centro Dom Oscar Romero (CEDHOR), CEDH, Assembleia Popular (AP), Comissão de Direitos Humanos da OAB, Comissão de Direito Homoafetivo e da Diversidade Sexual da OAB, Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino Privado da Paraíba (SINTEENP), Conselho Regional do Assistente Social (CRESS), Igreja Metropolitana (ICM), Coordenadoria Municipal de Promoção a Cidadania LGBT e da Igualdade Racial, Núcleo de Direitos Humanos da UPFB (NDU/UFPB), Movimento Negro Organizado da Paraíba, Bamidelê – Organização de Mulheres Negras (OMN), Fórum Paraibano pela Igualdade Racial (FOPPIR), Rede de Mulheres de Terreiro, Federação dos Cultos Afros Brasileiros (FICAB), FEPUMCANJU, Ilê Tata do Axé, Setorial de Combate ao Racismo do PT-PB, Setorial LGBT do PT-PB, Comissão Setorial Municipal de Mulheres do PT-PB, PSOL, Setorial de Direitos Humanos do PV, Associação de Mulheres Trans da Paraíba (ASTRANS-PB), SOS Mata Atlântica, Associação Paraibana dos Amigos da Natureza (APAN), Sindicato das Domésticas de João Pessoa e APAE.

Nota

Ellen Oléria: “Até o homofóbico tem seu lugar, contanto que não me prejudique”

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Ninguém sai de um show de Ellen Oléria da mesma maneira que entrou. Ninguém sai impune dos versos próprios (já que todos os que ela canta, sendo de sua autoria ou não, são só dela) da cantora, compositora e atriz brasiliense de 30 anos, negra, lésbica, e fora dos padrões estéticos de capa de revista feminina. Letras que falam do dia a dia das minorias, do preconceito e da discriminação encontram brechas em temas de amor, paixão e do cotidiano de Ellen, batem fundo em quem sabe bem o que tudo isso significa na pele. Pouco antes do seu show em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, em João Pessoa (PB), conversei com a ganhadora da primeira edição do reality show The Voice Brasil, na companhia de sua namorada, assessora de imprensa e companheira de todas as horas, Poliana Preta.

Texto: William De Lucca

Fotos: William De Lucca e Ricardo Puppe

William De Lucca – Você é mulher, negra, lésbica e está fora dos padrões estéticos ‘cobrados’ numa sociedade machista, misógina, racista e homofóbica. A sua presença na mídia, por si só, já pode ser considerada uma subversão?

Ellen Oléria – Acho que isso é até uma unanimidade. Acho que sim, acredito que fui fazer uma bagunça lá no The Voice Brasil. Quando fui encontrar a equipe do programa pela primeira vez, pra fazer um registro, perguntaram o que eu ia levar ao programa. Ainda sem saber muito sobre como seria o formato, eu disse que discordava da frase de Gil Scott-Heron, de que a revolução não seria televisionada, porque se eu fosse pra TV ia ter revolução (risos). Foi mesmo, pelo menos na minha vida, que hoje é outra, minha vida deu uma reviravolta. Eu fico feliz de chegar na casa de tantas famílias como as nossas, um retrato tão colorido e diverso, e poder ver tantas gerações emocionadas com esse som.

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WL – Você já disse em algumas oportunidades que não gosta de falar sobre as vezes que sofreu preconceito, mas como você lida quando uma situação dessas de discriminação acontece?

EO – Eu não sei. É o tipo de coisa que, quando a gente põe os pés no chão de manhã e escolhe a roupa pra experienciar o dia, encontrar o sol ou ver a lua, a gente não se organiza pra uma situação de violência. Não é o que a gente espera encontrar, e esse é um dos motivos pelos quais eu não assisto TV, pra não ficar ‘fervendo’ esse tipo de noticia ruim em casa. Não quero pra mim, não quero pro meu dia, eu tô chamando outras coisas. Eu vou te dizer que ante a uma situação de violência, eu só posso reagir com o inusitado. Acho mesmo que muitas vezes uma defesa vira um ataque, um contra ataque. Muitas vezes eu não estou disponível pra ocupar a função de vitima social. A violência comigo não vai ter vez não, como diria minha mãe, “quem dá, leva saco pra trazer” (risos).

WL – A homofobia no Brasil tem cura?

EO – Acho que temos varias patologias sociais no Brasil, de toda sorte. Quando observo tantas formas de culto diferentes, entendo até que o homofóbico precisa ter um lugar no planeta, contanto que ele não me prejudique. Como disse a Rita Lee, “quem não esta do meu lado, que saia da minha frente”. Eu acho que cabe também o tal do homofóbico, mas o grande lance está em encontrar essas ideologias diversas e trazer pra um plano saudável nossas garantias de espaços de atuação. Outro dia, quando eu fui visitar minha mãe, peguei um ônibus e sentei do lado de um homem branco, careca, e quando me sentei ao lado dele, ele botou a mão na divisória dos bancos, pra mostrar uma tatuagem que marca ele como parte de um grupo que diz que me odeia. O que eu posso fazer? Eu também estou indo, estou no ônibus e eu também vou, acho que a gente vai ter que dividir este espaço (risos). Se eu estou incomodando ele, de alguma maneira ele também me incomoda, acho que a gente lida com estes incômodos. Desci tranquilamente do ônibus, cheguei em casa em segurança, ele também. Acho que pode ser por aí.

WL – Gilberto Freyre disse, no começo do século passado, que o Brasil vivia uma democracia racial. Hoje, em 2013, o quão errado você acredita que Freyre estava?

EO – Nem precisava pensar nisso no nosso tempo, vendo os livros de historia a gente percebe que a democracia racial é uma balela. Sem o inocentamento do outro não há a possibilidade de ‘polis’ inter-racial, pra gente estar junto a gente precisa inocentar. Não precisamos mais desse lugar de um algoz e uma vítima, as gerações que vieram antes de mim trouxeram um debate violento, muitas vezes populista. As próprias ferramentas institucionais ainda carregam os signos dessa construção de um projeto de nação que não é pra todo mundo. A gente tem recortes de gênero, raça, econômicos, de afetividades diversas, vivemos num pais com uma herança bizarra de perseguição e extermínio de várias correntes de pensamento. A gente tinha tantas línguas aqui, a nossa cultura seria muito mais diversa. Além de seguir sobrevivendo, eu sigo procurando minha paridade, onde estão meus pares, pra gente se manter viva.

WL – Você nunca foi militante de nenhum movimento social organizado. Ainda assim, você acredita que o ‘ativismo do dia a dia’ é tão importante para as conquistas da minoria quanto os movimentos organizados?

EO – Inclusive para esta conquista eu vou até me declarar lésbica, trazer a vista. A gente em Brasília usa muito lésbica ao invés de gay pra colocar a gente embaixo do holofote, ou sapatão (risos). Acho que sim, basicamente o que importa pra mim é o cotidiano, meu projeto politico impregna as ações do meu dia, determinam minhas ações no dia. Meu discurso está cheio disso também, minha musica, minhas conversas com meus amigos, minha dieta (vegana), acho que a gente vai testando. Uma hora a gente acerta o passo e vai ter mais possibilidades de dar as mãos.

WL – E você pretende casar? Ter filhos?

EO – Na verdade, a gente já casou umas 37 vezes. [WL – e no papel?] No papel? Ainda não chamam de casamento né? [WL – Lá no Distrito Federal já dá pra casar sim…] Ah, Poli, ele está perguntando se a gente vai casar, você quer casar comigo? (Ellen gritou pra namorada, Poli Preta, que saiu correndo para abraça-la e responder que quer sim casar). Então, a gente vai casar. Varias cerimonias, votos, de tudo um pouco.

WL – Você acredita que a gente pode ter um Brasil mais tolerante amanhã?

EO – A gente precisa acreditar. Sempre perguntam que legado a gente que deixar pros nossos filhos. Eu não tenho filhos, eu quero que seja hoje, não quero pensar nisso pro futuro não, eu quero já. A gente existe e, na verdade, isso não precisava nem ser pauta das nossas conversas, a gente tem de lidar com isso. A gente está aqui também e cabe todo mundo.

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Adolescentes sofrem agressões homofóbicas durante festa no interior da Paraíba

ATUALIZAÇÃO (29/05/12 – 22h24):

 

Segundo diversos sites de notícias, os próprios ‘agredidos’ confessaram que começaram a briga, que não teve motivação homofóbica.

 

Segue o relato de Kika Naelle, que também compartilhou as fotos do menor agredido no Facebook.

“Não passou de uma grande mentira o caso de agressão a um menor por caso de homofobia, no evento Micaranhas, na cidade de São José de Piranhas na Paraíba.

O menor usou de má fé para comigo e mais dois amigos e isso me incentivou a iniciar o movimento expondo a minha indignação sobre o caso. Não só eu como também outros dois amigos acreditamos na versão relatada pelo menor, que disse ter sido agredido, vítima de agressão física e moral pelo fato de ser homossexual.

Como é sabido, o menor estava com um grupo de amigos no evento e foram agredidos, porém, os próprios confessaram após a repercursão em grande massa nas redes sociais, rádios e afins que estavam realmente cometendo atos de vandalismo no camarote do evento, e sendo assim o suposto agressor os alertou de uma provável expulsão do local caso não cessassem a baderna. O que poucos sabem é que não existiu nenhum ato de homofobia contra o grupo e que o suposto agressor na verdade foi o agredido . O grupo insatisfeito com o alerta proferiu atos obscenos para o suposto agressor, causando a indignação do mesmo.

O menor inventou isso para que assim fosse feita justiça, nas palavras do próprio “só assim ele pagaria pelo o que ele fizeram com a sua cara”. O grupo compactuou com versão de homofobia, dizendo manter essa alegação na delegacia e onde fosse necessário, justificando esse ato de inconsequência, ou seja, essa mentira com a indignação que sentiram ao ver o amigo menor naquele estado.

Venho por meio das redes sociais (como tudo começou) tentar me redimir quanto ao ato precipitado. Quis ajudar uma pessoa que pensei ser meu amigo e acabei prejudicando uma pessoa inocente. Isso me serviu como aprendizado e espero encarecidamente que a mesma repercussão da justiça em prol de uma mentira seja feita, agora, em prol de uma verdade e que sirva de exemplo: Antes de se tomar uma atitude num caso como esse, investigar as duas versões da história”.

Procurei entrar em contato com o menor, que me cedeu entrevista por telefone na tarde de ontem, mas ele não atende os telefones e excluiu seu perfil no Facebook.

Aos leitores do Blog, peço a compreensão. As vezes, nossas fontes mentem, e só nos resta a retratação ante ao acontecido.

 

***

 

Quatro jovens, entre eles um menor de idade, foram espancados por três homens em uma festa no interior da Paraíba, no noite deste domingo (27). O evento, um carnaval fora de época chamado Micaranha, acontece anualmente em São José de Piranhas, no Sertão Paraibano, foi o pano de fundo para mais uma agressão violenta a homossexuais.

De acordo com o menor agredido, Pedro* , de 16 anos, ele e mais quatro amigos, dois rapazes (de 19 e 20 anos) e duas garotas (18 e 22 anos), todos homossexuais, estavam em um dos camarotes da festa, quando um grupo de três homens passou e começou a proferir ofensas homofóbicas. “Estávamos apenas bebendo e nos divertindo quando as ofensas começaram, nem abraçados estávamos”, diz o jovem.

Como defesa, eles começaram a vaiar os agressores. Um dos homens, de 30 anos, voltou para o camarote e começou a agredir o jovem de 19 anos. Pedro* partiu em defesa do amigo e também acabou agredido. “Nem as meninas escaparam e também foram agredidas”, conta.

Além do homem, outros dois também participaram das agressões, e fugiram logo em seguida. Segundo o menor, a polícia estava no local e nada fez para interromper as agressões. “Nem levar a gente na delegacia eles quiseram, tivemos que ir sozinhos”, relembra. Ele diz ainda que tiveram de enfrentar o descaso das autoridades diante do fato, já que, na delegacia, um policial teria dito a eles que ‘o caso não iria dar em nada’.

Segundo Pedro* , seus pais sabem de sua orientação sexual e lidam bem com a situação. Na escola e entre seus amigos, ele diz que nunca sofreu nenhuma discriminação, mesmo morando em uma cidade do interior da Paraíba. “Nunca tinha sido xingado, nem agredido. Mas não estou com medo, não acredito que isso vá acontecer novamente”. Ele e os amigos devem procurar a delegacia nesta segunda-feira (28) para prestar queixa contra os agressores.

*Nome fictício

“Penso em me matar todos os dias”, diz homossexual ameaçado de morte por torcedores

Rommel Costa tem 27 anos, mora em Fortaleza (CE) e já pensou diversas vezes em se matar. O motivo? Uma foto tirada junto a um ex-namorado, onde usava a camisa da torcida organizada de um time de futebol cearense, onde Rommel era beijado e abraçado. Desde a publicação da foto, há seis anos, Rommel teve de largar a faculdade e passou a sofrer ameaças de morte pela internet, de torcedores de vários times cearenses. “Hoje eu tenho medo de sair de casa”, confessa.

A confusão começou quando o jovem ganhou de presente de sua tia, uma camisa de uma torcida organizada de o Ceará Futebol Clube, a Cearámor. Vez ou outra, Rommel usava a camisa, mesmo não sendo espectador assíduo de jogos de futebol e sem nunca ter assistido uma partida em um estádio. “No dia em que a foto foi tirada, em 2006, fui encontrar meu namorado em um shopping da cidade, e resolvi usar a camiseta. Estávamos andando de mãos dadas, quando uma moça se aproximou e perguntou se poderia tirar uma foto nossa”, relata.

De acordo com Rommel, a garota havia se apresentado como funcionária do Shopping Benfica, apesar de estar sem uniforme, e disse que a foto iria para uma campanha alusiva ao Dia dos Namorados. Na verdade, a jovem era funcionária da loja oficial de uma torcida rival, a Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), e divulgou as imagens na internet com frases de conteúdo homofóbico, inclusive incitando a violência contra Rommel e o namorado. “Depois de uma semana, recebi um telefonema de um amigo do Rio de Janeiro que viu as fotos na internet, e que elas estavam sendo enviadas para muita gente, inclusive para meus parentes e amigos. Além disso, fui constrangido por uma diretora do próprio shopping, que me disse que não deveria ter feito ‘aquilo no shopping dela”, revela.

Ele conta que depois que as fotos se espalharam pela internet, foi ameaçado diversas vezes, inclusive por integrantes da própria torcida do Ceará. “O líder de uma das torcidas disse no Orkut para que me encontrassem na cidade para me ‘apagar’ e ficaram marcando encontros para me agredir fisicamente. Minha vida foi um inferno durante mais de um ano. Mudei de telefone, parei de ir para a faculdade, tive de mudar muitos hábitos”, diz Rommel, que hoje trabalha em navios de cruzeiro, e passa a maior parte do ano em alto-mar.

Segundo ele, após dois anos de ameaças, os problemas diminuíram e só retornaram há alguns meses, com a popularização do Facebook no Brasil. “Sempre denuncio as postagens ofensivas, mas elas sempre reaparecem. Minha vida voltou a ser um inferno, algo terrível. Me ofendem por conta de uma maldita camisa, porque eu beijei meu namorado vestido com ela”, desabafa.

A pior parte ainda estava por vir. Ao procurar a Delegacia do 13º distrito de Fortaleza, Rommel ouviu que as postagens tratavam-se de ‘brigas infantis, coisa de internet’, e que ele estaria perdendo tempo caso tentasse levar as denúncias a diante. “Desde então, quase não saio de casa, durmo a base de remédios. Acho que esta situação é desumana, e tudo por conta da homofobia e do preconceito envolvendo torcidas de futebol”, finaliza o jovem. Hoje, Rommel, aos 27 anos, é mais um prisioneiro condenado a prisão perpétua pela homofobia no Brasil.

Presidente da Diversidade do PSDB: “Dilma assinou compromisso com fundamentalistas evangélicos, enquanto o Serra, não”

Em uma época onde os direitos LGBT são rifados pelo Governo Federal e por acordos políticos da Presidente Dilma Rousseff com a bancada evangélica no Congresso, grupos políticos de oposição se mobilizam para dar visibilidade as reivindicações e aos direitos dos homossexuais. Entre os partidos considerados conservadores, normalmente mais resistentes as lutas dos movimentos sociais, o PSDB e sua Diversidade Tucana (DT) se destacam como voz solitária mais a direita do espectro político brasileiro.

O PSDB registra grupos de luta pelos direitos dos homossexuais desde 1994, mas um coletivo político LGBT só foi estabelecido oficialmente em 2006. De concreto, o tem o vereador de Piracicaba (SP), Bruno Prata, e já tem pré-candidatos a vereador em Piracicaba, Goiânia, Belém e em São Paulo, além de defensores dos direitos LGBT candidatos a prefeito e vice-prefeito em todo o Brasil, de acordo com a própria DT.

Hoje, o grupo é presidido por Marcos Fernandes, formado em filosofia, e hoje assessor parlamentar da Secretaria da Fazenda de SP. Ele já foi chefe de gabinete da Secretaria de Participação e Parceria e assessor da bancada do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo. Em entrevista exclusiva ao Blog do De Lucca, Marcos falou sobre o governo Dilma e a avaliação tucana sobre a situação dos homossexuais no Brasil atualmente.

Como surgiu a Diversidade Tucana? Como ela atua hoje em dia, como esta organizada?

Marcos – A Diversidade Tucana foi oficialmente criado em 2006, mas já havia no PSDB, pelo menos desde 1994, grupos de LGBT que atuavam nas campanhas eleitorais, especialmente nas elaborações de planos de governo. Muitas das ações do PSDB no tema da diversidade sexual aconteceram antes de existir o Diversidade Tucana, até que essas pessoas começaram a perceber que era hora de uma atuação mais orgânica, mais permanente. Nos últimos anos passamos a focar nossa atuação dentro do partido e isso tem nos levado a bons resultados. Há alguns dias, por exemplo, eu estive em Belém do Pará, na cerimônia de oficialização da criação do Diversidade Tucana estadual e municipal lá, com presença e apoio de grandes lideranças do PSDB paraense, e a chancela do governador Simão Jatene, que faz um governo que promove a cidadania LGBT e combate a discriminação.

O PSDB ainda pode ser considerado um partido conservador?

Marcos – O PSDB nunca foi conservador e nem de direita. Isso é coisa que alguns militantes falam como tentativa de desqualificar, na hora do embate político-eleitoral. Eu acho uma bobagem, porque ser progressista ou conservador não é um simples rótulo que alguém te coloca e pronto, são adjetivos que devem espelhar as suas ações. O PSDB foi pioneiro no Brasil em termos de políticas sociais mais avançadas. Até o governo Fernando Henrique Cardoso, o que se tinha no Brasil eram aquelas distribuições de cestas básicas, imensas campanhas de arrecadação de donativos para serem transportados até as regiões mais pobres do país, a distribuição era uma prerrogativa dos políticos locais, que usavam isso a seu favor. Era essa a grande força do coronelismo. No governo FHC foram criados os programas de transferência de renda, como a Bolsa-Escola, que depois foram unificados e viraram o Bolsa Família. A estabilização econômica, com o fim da inflação, também aumentou muito o poder de compra dos trabalhadores. Isso sem falar nos grandes saltos tecnológicos que proporcionaram a democratização de alguns serviços que antes só os ricos tinham acesso, como na área de telefonia, e nas políticas de Direitos Humanos e de Saúde, que foram as mais progressistas que já tivemos no Brasil até hoje.

Como se dá a articulação dentro do partido, que tem em seus quadros muitos conservadores? O Partido ‘abraça’ a diversidade?

Marcos – Em seus governos, o PSDB sempre “abraçou” a diversidade, desde o governo Montoro em São Paulo, em 1983. A primeira campanha de Saúde voltada para gays e o primeiro Plano de Direitos Humanos que incluiu LGBT foram no governo FHC. O primeiro órgão de governo específico para a questão da diversidade sexual foi criado pelo Serra, em 2005, quando prefeito de São Paulo. Como governador ele criou uma coordenadoria estadual semelhante, e o primeiro ambulatório de saúde voltado para travestis e transexuais do Brasil. Temos muitas outras ações como essas em muitos governos do PSDB: delegacias contra intolerância, centros de referência, conselhos LGBT, dispositivos legais, campanhas anti-homofobia, etc. O PSDB tem em seus quadros algumas pessoas que preferem atuar na contramão disso, como em todos os partidos hoje em dia, esse é um movimento que infelizmente vem crescendo muito no Brasil. Mas felizmente no PSDB essas são as exceções. Os grandes líderes do PSDB têm todos muito o que mostrar quando se fala em cidadania LGBT.

Qual a autonomia da DT para se manifestar em relação as suas posições? Qual a força do movimento dentro do partido?

Marcos – Temos total autonomia e o partido reconhece nossa atuação como algo positivo, nunca nos colocou empecilhos, pelo contrário. Temos recebido apoio de várias lideranças para fazer nosso trabalho, que muitas vezes também é interno, de estimular o debate, levar informações que às vezes alguns membros ainda não têm. Esse trabalho é dinâmico, e tem crescido muito exatamente porque contamos com o apoio institucional do partido.

Como a DT está trabalhando para as eleições 2012? Serão quantos candidatos da Diversidade do PSDB?

Marcos – A principal tarefa será preparar os Planos de Governo referentes a programas e projetos para a população LGBT e faremos um trabalho também com os candidatos a Vereador.

Como você avalia o trabalho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em relação as políticas LGBT? Quais foram os avanços que tivemos durante seus oito anos de mandato?

Marcos – Em muitas áreas o governo FHC implantou políticas pioneiras, que abriram as portas para diversas conquistas do povo brasileiro. Na questão LGBT não foi diferente. Para você ter ideia, antes do Fernando Henrique nenhum presidente brasileiro tinha sequer falado a palavra “homossexual” em público. Ele lançou o primeiro Plano Nacional de Direitos Humanos que contemplava LGBT. Foi uma mudança de paradigma porque até aquele momento a questão LGBT no Brasil se limitava à área da Saúde, especialmente na questão do HIV/Aids, e a partir daquele documento o governo brasileiro passou a reconhecer que o respeito à orientação sexual das pessoas era uma questão de direitos humanos. Durante o governo FHC também tivemos o programa de combate à Aids considerado pela ONU o melhor do mundo. E ele deu certo porque o então ministro José Serra teve a capacidade de enxergar e reconhecer a atuação das organizações do movimento LGBT brasileiro e fazer parcerias com elas para que a prevenção e o tratamento realmente chegassem às pessoas que precisavam. Essas duas mudanças de olhar sobre a população LGBT mudaram toda a nossa história de lá para cá.

E em relação ao Governo Lula? Você viu no governo do petista mais avanços do que no governo tucano?

Marcos – Durante o governo Lula nós tivemos, infelizmente, uma estagnação. Começou mantendo o ritmo que vinha do governo FHC até lançar o programa Brasil Sem Homofobia, em 2004, que era um programa bastante avançado, que nos deu muitas esperanças. O problema é que não saiu do papel, e o pouco que foi executado hoje já não existe mais. Depois, só nos últimos anos de mandato, o presidente Lula convocou a Conferência Nacional LGBT, cujos resultados práticos também foram pífios; implantou um conselho LGBT em que os membros são indicados e, com isso, quase todos são ligados ao PT; e criou uma coordenação LGBT, ao contrário de outros segmentos como mulheres e negros, que têm secretarias especiais ligadas diretamente à Presidência da República, com status de ministério. Ou seja, esperávamos muito mais do Governo Lula, até pela atuação que o PT costumava ter no Legislativo em relação a LGBT. No fim, os maiores opositores de projetos como o PLC 122 eram da base aliada do Governo Lula e ele nunca usou sua influência política para fazer o projeto andar e ser aprovado. Não fomos tratados como assunto importante.

A Presidente Dilma está sendo duramente criticada pelo Movimento LGBT por sua aproximação com a bancada evangélica e com fundamentalistas religiosos como Marcelo Crivella e Magno Malta. Como você vê esta relação de Dilma com os evangélicos?

Marcos – Nós precisamos fazer uma diferenciação: uma coisa é estar próximo e ouvir de forma republicana todas as forças políticas que representam setores da sociedade; outra coisa é virar as costas para uma população de quase 20 milhões de brasileiros e barrar políticas públicas importantes para essas pessoas em nome de negociatas com uma força política específica. Esse é o problema da presidente Dilma: ela barrou o kit anti-homofobia em uma negociação com a bancada evangélica para tentar salvar o então ministro Antonio Palocci, que na época estava sob investigação; depois deu declarações que reforçavam estigmas e preconceitos, dizendo que o kit fazia “propaganda de opções sexuais” (sic); barrou uma campanha de prevenção ao HIV/Aids volta da especificamente para homens gays, coisa que dez anos antes o governo FHC já havia feito. E em meio a tudo isso, ela jamais recebeu representantes do Movimento LGBT desde que tomou posse, nem mesmo as organizações e lideranças mais ligadas ao PT. Ou seja, a presidente Dilma escolheu não levar em consideração essa população. Se durante o Governo Lula os avanços nessa área desaceleraram, agora no governo Dilma estamos andando para trás.

Durante a campanha eleitoral de 2010, Serra também se mostrou bastante próximo aos evangélicos, usando o mesmo discurso sobre o aborto e negando-se a falar sobre direitos dos LGBT, angariando inclusive o apoio do pastor Silas Malafaia. Como você acha que teria sido esta relação entre Serra e os evangélicos, caso ele tivesse sido eleito?

Marcos – As pessoas às vezes tentam colocar posturas completamente diferentes no mesmo saco, para confundir mesmo. Veja as diferenças: o Serra sempre foi contra o aborto, é uma posição pessoal dele, enquanto a Dilma disse em uma entrevista ser a favor e durante a eleição disse ser contra. O que o Serra estava criticando não era o fato de ela ser a favor do aborto, mas de ter mudado de posição apenas para a eleição. Você pode ir atrás de uma sabatina do Portal R7, ligado à Rede Record, em que o Serra disse com todas as letras ser a favor do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Ele recebeu o apoio do Silas Malafaia, mas era o Malafaia quem estava apoiando as ideias dele, e não o contrário. O Serra não fez como a Dilma, que assinou compromisso com fundamentalistas evangélicos de não mexer em uma série de questões, entre elas as questões LGBT. E o mais importante: o Serra tem história, a gente podia olhar para trás e ver o que ele tinha feito, quais tinham sido as posturas dele. Quando foi governador de São Paulo, ele teve deputados evangélicos na sua base aliada, mas quando um deles apresentou um projeto de lei para revogar a lei estadual anti-homofobia, um representante da Secretaria da Justiça foi à Assembleia Legislativa dizer que se aquele projeto fosse aprovado o governador vetaria o projeto. Ou seja, o Serra é uma pessoa que governa para todos e não deixa um segmento da população tentar impor derrotas e retrocessos a outros.

Você acredita que o debate de evangélicos contra não-evangélicos será a tônica das próximas eleições presidenciais? Como você acha que o PSDB vai se posicionar em relação a isso?

Marcos – O Brasil não vai bem. Nós tivemos um ganho de poder de compra de parcela importante da população e um momento econômico muito feliz, mas nada disso se reverteu em mais qualidade na educação, saúde, saneamento básico, cultura, transparência e ética no serviço público. Tivemos nos últimos anos um país que cresceu em PIB (Produto Interno Bruto) e não cresceu em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). E hoje já vemos o endividamento da população crescer a patamares alarmantes e a atividade industrial enfrenta seu sexto mês seguido de queda. Portanto, quem simplificar o debate das próximas eleições presidenciais a questões tão desimportantes quanto essa é porque não tem soluções a apresentar. O PSDB certamente não entrará nisso.

Muita gente critica a dicotomia política entre PSDB e PT. Você acha que há outros partidos que possam quebrar a hegemonia política de tucanos e petistas, ou os dois partidos se consolidarão cada vez mais como os dois maiores do Brasil?

Marcos – A polaridade entre duas forças políticas é algo natural com a consolidação das instituições democráticas. No mundo todo é assim, e o Brasil também caminha nesse sentido. O problema do Brasil não é a polarização entre PT e PSDB, mas sim os chamados “partidos de aluguel”, que são pequenos partidos que trocam seu apoio de forma fisiológica. A sociedade brasileira precisa se conscientizar da necessidade de uma reforma política profunda para que a qualidade da nossa representação política aumente. Dispositivos como o voto distrital ou distrital misto são fundamentais para isso.

Como o PSDB e sua Diversidade se posicionam em relação ao kit contra a homofobia (vetado no Governo Dilma), a PLC 122 (barrada no congresso) e o Casamento Gay (cujo projeto não avança por pressão dos evangélicos)?

Marcos – O kit anti-homofobia é, em primeiro lugar, um material de qualidade discutível. Mas o problema é que não houve um diálogo amplo com a sociedade para a sua apresentação. Nem mesmo o Movimento LGBT foi incluído de forma mais ampla nessa discussão. Ninguém pode querer abordar um tema polêmico como esse, que mexe com a moralidade e até a religiosidade de cada família, sem fazer um trabalho de conscientização da necessidade desse material junto às comunidades escolares. Quando os grupos fundamentalistas apresentaram vídeos falsos, dizendo que o kit trazia filmes eróticos para as crianças assistirem, a sociedade acreditou porque o Ministério da Educação foi incompetente em trabalhar a entrada desse material. Essa mesma central de boatos e falsos argumentos cerca o PLC 122 e mesmo nós às vezes temos dificuldade em informar os parlamentares do PSDB sobre esse tema, tamanha a organização dos grupos contrários ao projeto. A ABGLT recebeu durante alguns anos recursos para um projeto chamado Aliadas, que era de conscientização dos parlamentares sobre as questões mais importantes para LGBT. Esse trabalho não alcançou resultado esperado. No Congresso Nacional predominam os argumentos dos religiosos fundamentalistas. É um trabalho de informação e convencimento bastante minucioso que precisa ser feito, e o Diversidade Tucana está trabalhando para que o máximo de parlamentares do PSDB se convençam da necessidade da aprovação desse projeto. Sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, temos em governos do PSDB diversas iniciativas de reconhecimento de uniões homoafetivas em questões previdenciárias, por exemplo, e casos como do senador Aécio Neves e o governador Geraldo Alckmin que comemoraram publicamente a decisão do STF em reconhecer essas uniões.

Como o movimento LGBT do PSDB lida com a opressão a outros movimentos sociais dentro do seu próprio partido? Pergunta de Danilo Motta, jornalista, Rio de Janeiro (RJ)

Marcos – Não há opressão a qualquer movimento social dentro do PSDB.

O que PSDB tem como proposta pra coibir os inúmeros casos de violência contra homossexuais no Brasil? Pergunta de Gilson Alves Rosa, Gerente Administrativo, Vitoria (ES)

Marcos – O modelo tucano de governar na questão LGBT tem sido de duas mãos: por um lado a promoção da cidadania LGBT por meio de manifestações culturais, avanços na questão do atendimento no serviço público, especialmente na área da saúde, acolhimento de pessoas LGBT em situação de vulnerabilidade social, qualificação profissional, espaços de diálogo com o poder público, etc; por outro lado o combate à homofobia através do aumento dos canais recebedores de denúncias, delegacias especializadas em crimes de intolerância e melhoria dos instrumentos legais, onde há.

Qual seu posicionamento sobre outras questões “polêmicas” dentro do partido, como cotas raciais, aborto e estado laico? Pergunta de Cauê Madeira, Designer, São Paulo (SP)

Essas não são questões polêmicas dentro do PSDB apenas, são questões polêmicas junto a toda a sociedade brasileira. Minha opinião sobre as cotas raciais é de que são positivas, mas não podem ser a única política pública para tratar da desigualdade racial no Brasil. Se não houver um olhar de longo prazo, que passe pela educação, qualificação profissional, moradia, entre tantas outras questões, nós continuaremos precisando desse tipo de “atalho” por tempo indeterminado. Sobre o aborto, eu não me sinto qualificado para ter uma posição, sendo homem. Essa é uma questão do universo feminino e as mulheres precisam ser empoderadas como protagonistas desse debate. Também é um tema que sofre com o obscurantismo de grupos que não querem sequer que a questão seja debatida, o que eu acho uma pena. O que penso ser realmente importante é entendermos que o aborto, mesmo sendo ilegal, existe. Milhares de mulheres realizam abortos todos os anos, muitas de forma totalmente inadequada. Essas mulheres precisam ser atendidas como cidadãs de forma digna. Isso me parece mais urgente. E sobre o Estado laico, não há o que discutir: o Estado é laico e deve continuar sendo laico.

Como a DT tem trabalhado a relação com a Bancada Evangélica do próprio partido?

Marcos – Hoje todos os partidos brasileiros têm representantes evangélicos. Pouca gente sabe, por exemplo, que o PT tem apenas um parlamentar a menos que o PSDB na bancada evangélica. Quem faz parte de um partido político entende que são normais e até saudáveis algumas divergências internas, e nós procuramos atuar pela via da informação, com respeito a todas as linhas de pensamentos que existem no PSDB sobre todos os tipos de tema. Nunca deixamos de nos posicionar sobre as questões relativas à cidadania LGBT, e por isso algumas vezes a relação é de conflito, mas nunca houve qualquer situação de desrespeito, perseguição ou obstrução de trabalhos.

O deputado federal tucano João Campos (PSDB-GO) é autor de projeto de lei para permitir que homossexuais possam ser ‘tratados’ por psicólogos, num projeto que ficou conhecido como ‘projeto da cura gay’. Esta posição de João Campos é a posição oficial do PSDB?

Marcos – Esse projeto é uma aberração, despropositado e não conta com apoio do partido.

O Movimento LGBT carece de força política, inclusive com representação de LGBT no Congresso e Assembleias Estaduais. Como resolver este problema?

Marcos – O movimento está muito partidarizado e isso compromete sua atuação como movimento social, é importante ter os grupos LGBT nos partidos, mas o movimento social não deve ser partidarizado.

Outra crítica recorrente é da falta de bases sociais do Movimento LGBT. Como você acha que este problema poderia ser resolvido?

Marcos – De uma forma geral, o Movimento LGBT precisa se voltar mais à população LGBT em si. Quando vemos, por exemplo, a ABGLT e o Conselho Nacional LGBT titubear frente aos vetos da presidente Dilma a políticas públicas voltadas à nossa população, como podemos esperar que as pessoas se sentissem representadas por esse movimento? O Movimento LGBT precisa defender os interesses da população LGBT acima de qualquer proximidade partidária ou interesse particular. Esse princípio básico não tem sido observado por muitas das nossas principais organizações e lideranças. Pode ver nas redes sociais e manifestações públicas como ainda tem militante LGBT tentando contemporizar as posturas anti-LGBT da presidente Dilma, falando que ela é “refém” de forças conservadoras, como se ela fosse vítima dos fatos e não protagonista deles.

Serra ou Aécio Neves? Qual dos dois tem mais proximidade com a Diversidade Tucana e com os direitos dos LGBT?

Marcos – A hora de se fazer esse debate não é agora. Tanto Serra quanto Aécio têm posturas e ações para mostrar à população LGBT, bem como Geraldo Alckmin, Simão Jatene, Teotônio Vilela, Beto Richa, Marconi Perilo enfim, o PSDB tem muitos nomes qualificados a apresentar para a população brasileira e o Diversidade Tucana tem a maior satisfação de dizer que podemos carregar a bandeira de qualquer um deles pois será sem dúvidas uma bandeira de respeito à população LGBT e de repúdio a qualquer forma de preconceito.

 

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Atualização (25/03/12)

Giovanni Viero, de Curitiba, me mandou link de matéria onde Serra teria dito que vetaria a PLC 122:

Em convenção da Assembléia de Deus, José Serra afirma que vetará a PLC 122 caso seja eleito