Diversidade, em todos os sentidos

Arquivo para novembro, 2010

Quem pode ter orgulho de ter orgulho

Vez ou outra alguns discursos se repetem. Repetem afirmações sem fundamentação, sem embasamento teórico, sem lógica e, principalmente, sem racionalidade. Um destes discursos questiona o direito das minorias de manifestar publicamente seu orgulho de ser o que são, reivindicando pra si o mesmo direito. Durante a realização da Parada do Orgulho Gay do ano passado, em São Paulo, um grupo de ignóbeis manifestantes apareceu na Avenida Paulista com faixas e cartazes dizendo ter ‘orgulho de ser hetero’.

A discussão é antiga. Nazistas e seus pares modernos, fascistas, xenófobos, racistas e outros agrupamentos de pessoas intolerantes clamam o direito de usar camisetas com as inscrições ‘100% Branco’ ou ‘Orgulho de ser branco’, em detrimento aos manifestos do movimento negro. Estes usam roupas e adereços que remetem a seus antepassados africanos, preservam sua cultura, suas tradições e cantam pra todo canto o orgulho que tem em serem negros.

E o que garante aos negros o direito de ter orgulho de assim serem? O fato de que, na verdade, eles não têm este direito garantido. Por séculos, pessoas foram arrancadas de suas casas, de suas famílias, de seus países, jogadas nos porões de navios, atravessando um oceano para trabalhar de forma escrava em uma terra que não era deles, apenas porque a cor de sua pele não era clara como acreditavam ser a certa por seus ‘donos’. A etnia negra tem todo o direito de ter orgulho de algo que nunca tiveram: de ser quem são. Os brancos não precisam lutar por direito qualquer, porque eles já tem todos, já que nossas leis foram feitas de brancos pra brancos, de maneira geral.

A regra vale para a Comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transgêneros e Transexuais). Como nossas leis foram escritas, votadas e executadas por heterossexuais, os mesmo não têm o que reivindicar. O direito de expressão dos heterossexuais existe desde sempre, já que vivemos em uma sociedade heteronormativa, onde é ensinado e transmitido culturalmente que a heterossexualidade é a única orientação sexual ‘natural’, enquanto as demais são apenas ‘opções’ ou ‘desvios’. Não há motivo de luta por orgulho, espaço ou direitos heteros.

Assim como os negros, gays, lésbicas e afins têm de ir para o embate. Não temos direito de casar ou de se unir com nossos parceiros, não temos segurança em sair nas ruas demonstrando afeto por nossos namorados sem medo de apanhar de homofóbicos. Se formos afeminados, não temos direito de ousar em sonhar em empregos que não sejam de maquiador, cabeleireiro, estilista. Se sofrermos agressões morais ou físicas, nossos agressores não serão punidos adequadamente. Precisamos protestar, gritar, fazer greves, passeatas, caminhadas, vigílias, ações educativas, ações sociais. Precisamos ter orgulho. Orgulho de sermos gays, lésbicas, trans. Precisamos ter tanto orgulho de sermos quem somos, que um dia, não precisaremos mais gritar pra sermos ouvidos, parar avenidas para sermos vistos e para termos nossos direitos respeitados. Neste dia, teremos orgulho de sermos humanos.

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Homossexualidade não existe.












“Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade – voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade”.


(Caio Fernando Abreu)

Um manifesto contra a lei da homofobia (e todas as outras leis)













Neste meu pouco tempo de ativismo LGBT (cerca de um ano pela internet), e devido principalmente ao meu quase tão recente outing (cerca de cinco anos), não esmoreci. Com 25 anos, ainda acredito na força da mudança advinda da manifestação popular, desde que justa de propósitos, como a luta pelos direito da comunidade gay. União civil entre pessoas do mesmo sexo, adoção homoparental, criminalização da homofobia: todas as demandas válidas, pois defendem os direitos e a dignidade de uma parcela de brasileiros que vivem a margem da lei, em uma twilight zone da cidadania.

O problema é que muita gente pensa o contrário. Os argumentos usados são diversos e passam desde que as novas legislações estariam criando aberrações jurídicas, dando benefícios que o resto da sociedade não tem, ao mais comum, que diz que as leis criariam uma ‘mordaça gay’, onde religiosos não poderiam mais criticar abertamente a ‘prática do homossexualismo’ impunemente. Ambos os argumentos tangem em um mesmo ponto: gays não precisam de legislações que defendam seus interesses pois já são protegidos pela legislação que protege o resto das pessoas ‘comuns’. Ou seja, devemos confiar no bom senso das pessoas, e tratar crimes motivados por preconceito de orientação/identidade sexual como crimes ‘comuns’.

No fundo, acho que concordo com estas pessoas. Gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgeneros não precisam de uma legislação específica que defenda seus interesses. A partir de agora, deixarei de lado esta campanha besta para a aprovação da PL 122, que criminaliza a homofobia. Devemos seguir o conselho dos reacionários e religiosos radicais e parar de lutar por este direito que não nos pertence. Devemos confiar no bom senso das outras pessoas quanto ao preconceito.

A partir de agora também, lanço outro desafio. Vamos lutar para que o congresso retire todos os direitos constitucionais individuais de todos os cidadãos. Vamos confiar no bom senso dos brasileiros. Que os religiosos, os mais fervorosos nas críticas aos projetos de lei que defendem os interesses dos LGBTs, abram mão dos artigos da constituição que defendam a liberdade de crença, o livre culto. Neste país, as liberdades religiosas sempre foram respeitadas, especialmente a dos cristãos protestantes e das religiões afro-descendentes. Ninguém nunca foi morto, preso, humilhado e proibido de praticar seu culto no Brasil. Vamos confiar a vida e a dignidade dessas pessoas nas mãos de pessoas que sempre respeitaram o direito de crer das outras pessoas e nunca censuraram nenhuma demonstração de fé diferente da sua.

Também acho que os negros não precisam de leis, de verdade. Apaguemos a palavra racismo e qualquer outra coisa que faça referência a discriminação étnica e racial. No Brasil, raramente um crime é motivado por preconceito relacionado ao tom da pele da vítima. Um homicídio é um homicídio. Uma agressão é uma agressão. A violência contra negros é predominante, mas isso não tem nada a ver com o fato deles serem negros, não é? Ninguém nunca foi morto, preso, humilhado, torturado, apenas por ser negro. Vamos confiar a vida e a dignidade dessas pessoas nas mãos de pessoas que nunca escravizaram e subjugaram baseados apenas na cor de pele de um ser humano.

Para as mulheres, que se apliquem as mesmas regras que para os homens. Nossa sociedade sempre foi justa, independente do gênero. Mulheres sempre puderam trabalhar, estudar, e até votar e serem votadas em nossa história. Sempre receberam os mesmos salários de homens em cargos semelhantes, sempre tiveram suas integridades físicas e psicológicas intactas dentro de casa e nunca sofreram com o machismo e a misoginia. Que haja uma lei para ambos os sexos. Vamos confiar a vida e a dignidade de nossas mulheres pessoas nas mãos de pessoas que nunca as trataram como sexo frágil, como seres humanos menos inteligentes, menos capazes e menos competentes.

A argumentação poderia se estender por milhares de caracteres, onde cairiam por terra séculos de conquistas civis de deficientes físicos, idosos, nordestinos, crianças, categorias profissionais discriminadas, e outras dezenas de minorias, que somadas, tornam-se maioria. Em um universo ideal, nenhuma minoria precisaria de leis que defendessem seus direitos básicos. Todos se respeitariam.

Mas nosso mundo cheio de falhas de caráter, falta de educação formal e formação moral, nós, gays, precisamos sim de leis que nos protejam de ações de grupos extremistas, de pessoas intolerantes e de ideologias discriminatórias, enquanto ações positivistas e educacionais não tem efeitos práticos. Precisamos de punições exemplares pra quem agride um homossexual apenas por ser homossexual, para quem demite um empregado após descobrir que ele não é heterossexual, ou para quem humilha um jovem na escola por conta de sua sexualidade. Para o bem da comunidade LGBT. Para o bem de toda a sociedade.

Militância LGBT e a Síndrome de Mulher de Malandro

O carioca Ferruccio Silvestro, depois de ser brutalmente agredido na saída de um bar gay, em Niterói (RJ)


Por dois dias inteiros, a hashtag #HomofobiaNão esteve entre as mais citadas no Twitter do Brasil. Por quase um dia inteiro esteve no topo desta lista, figurando nos trends mundiais, dando visibilidade à manifestação promovida por ativistas dos direitos LGBT e simpatizantes da causa, em referência aos ataques sofridos por homossexuais em São Paulo e no Rio de Janeiro durante a última semana. E de que esta visibilidade valeu ao combalido movimento de defesa dos direitos dos homossexuais e afins? Praticamente nada.

A visibilidade que a internet dá aos assuntos no Brasil é muito grande. Hoje, o Twitter e seus assuntos mais comentados pautam as redações dos veículos de comunicação tradicional, fenômeno que ficou claro durante as eleições deste ano, mais recentemente com o caso da bolinha de papel que atingiu o candidato derrotado a presidência, José Serra. Ganhar visibilidade na rede é importante, sem dúvida, mas a militância LGBT se reduz a praticamente este campo, e a explicação é simples: gays, de maneira geral, não protestam por seus direitos de forma efetiva. A prova deste lamentável fenômeno se explica por duas manchetes, ambas do site G1:

21/11/2010 – Manifestação contra homofobia reúne 200 pessoas na Avenida Paulista

14/06/2009 – Mais de três milhões participam de Parada Gay em São Paulo

Explicando.

Quando o evento é festivo, onde a Avenida Paulista se enche de DJs, drag queens e trios elétricos, milhões de homossexuais de São Paulo e dezenas de outros estados lotam as ruas da cidade, na maior micareta gay do mundo, que ano após ano vem perdendo sua significação.

Agora, se o evento tem realmente um caráter de protesto, onde os gays têm um espaço para buscar visibilidade na nossa mídia (onde somos quase transparentes), apenas 200 pessoas aparecem para gritar contra os absurdos ocorridos em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Esta falta de engajamento político e social da grande maioria dos homossexuais me faz acreditar que, na verdade, sofremos da “Síndrome da Mulher de Malandro”: gostamos de apanhar, gostamos de ser humilhados na escola, no trabalho, gostamos de ser tratados como aberrações por parte de grupos religiosos fanáticos, gostamos de ter nossos direitos civis extirpados, gostamos de não poder ter uma união civil estável com nossos parceiros, gostamos de sofrer bullying. Gostamos de humilhação. Gostamos de degradação. Gostamos de ser viadinho, boiola, baitola, bichinha, pederasta, sodomita. Gostamos de soco na boca, de lâmpada na cara, de chute nas costelas. Somos “mulheres de malandro” dos skin-heads, dos fascistas, dos neonazistas, dos preconceituosos e homofóbicos em geral.

Não vejo outra explicação além do comodismo, ou quem sabe o medo da violência, injustificado, pois a violência já está aí, batendo em nossas portas e na cara de nossos iguais. Em qualquer grupo social oprimido há a busca por direitos, por respeito e por dignidade. Em qualquer grupo que sofre, o sofrimento de seus iguais toca a todos, que se engajam na luta, de mãos dadas por um ideal em comum.

Mas não funciona assim com a comunidade LGBT, se é que é justo usar o termo comunidade para definir esse agrupamento de pessoas que, em comum, parecem ter apenas a orientação sexual. Pra gente, parece que nossa existência como LGBTs não tem nada a ver com a existência como LGBT de nosso vizinho. A morte de outro gay, apenas por ser gay, não nos afeta. A violência, como a que sofreu o carioca Ferrucio Silvestro, em 2007, que foi covardemente espancado na saída de uma balada, apenas por ser gay, não nos afeta. A demissão de nossos amigos gays, apenas por serem gays, não nos afeta. Tudo segue em nossas vidas tacanhas e individualistas.

Os poucos que saem do armário pra militância são chatos, desagradáveis, inconvenientes. Aqueles que lutam pela aprovação do Projeto de Lei 122/2007, pela união civil entre pessoas do mesmo sexo, pela adoção homoparental e pelos outros direitos que nos são extirpados todos os dias.

Os LGBTs precisam acordar. O bonde da história está passando, e nós não estamos nele. Os LGBT precisam acordar. E espero que isso aconteça logo. Espero que isso aconteça antes que uma lâmpada exploda na nossa cara, ou que um tiro atinja nossa barriga depois das paradas gays da vida.


William De Lucca Martinez

Jornalista

deluccamartinez@hotmail.com / http://www.twitter.com/delucca

– O breu.

A melancolia calada das luzes,

que brilham sem saber porque,
e que apagam sem aviso.

O breu inevitável.