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Rachel Sheherazade: o eco reacionário e fundamentalista na TV

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O jornalismo é um retrato da sociedade, e indubitavelmente é palco de disputas ideológicas entre correntes políticas e filosóficas, entranhadas sob a máscara da ‘imparcialidade’. Neste palco, uma personagem vem ganhando destaque como representante de vozes reacionárias, conservadoras e fundamentalistas religiosas: a jornalista Rachel Sheherezade, âncora do telejornal SBT Brasil.

Ela tornou-se célebre nacionalmente por um comentário onde criticava o carnaval da Paraíba, estado onde nasceu e iniciou sua carreira como jornalista. Aos 39 anos, deixou seu estado natal para assumir a bancada do principal telejornal do SBT e lá, continuou a se posicionar de forma dura sobre diversos pontos, sempre deixando claro suas visões de mundo conservadoras, usadas ad nauseam por reacionários por todo o Brasil.

Num estado democrático de direito, não há problema nenhum que Rachel expresse seus pontos de vista, por mais infelizes que a maioria deles seja. O problema é que a jornalista utiliza a bancada do telejornal para reforçar estereótipos e para atacar princípios constitucionais como a laicidade do estado. Sobre a decisão da Justiça Federal de São Paulo em negar pedido do Ministério Público Federal para obrigar a União e o Banco Central a retirada expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, Rachel despejou suas falácias em relação ao tema, dizendo que o ‘cristianismo está sendo perseguido pelos defensores do estado laico, que voltaram sua ira contra a minúscula citação nas notas’. Ignorando a história da civilização, acusou os defensores da laicidade do estado de ingratidão com a doutrina que, segundo ela, inspirou os valores, a cultura e a própria constituição federal, esquecendo que o estado não possui religião e não expressa religiosidade, sendo esta de foro íntimo dos cidadãos.

Como esperado, após a primeira incursão no campo da religião, uma especialidade da jornalista, Sheherezade voltou a repetir as mesmas falácias esquizofrênicas de perseguição religiosa contra cristãos, em um país onde mais de 90% da população professa a mesma tendência religiosa, quando da decisão do Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que determinou a retirada de crucifixos e símbolos religiosos dos prédios da Justiça gaúcha. Vestida de um coitadismo ímpar, ela engrossou o coro de fundamentalistas religiosos, classificando a decisão acertada do TJ-RS de ‘intolerância religiosa’, questionando a laicidade do estado com o argumento inacreditável de que ‘a constituição foi promulgada sob a proteção de deus’, ignorando que a frase consta APENAS no preâmbulo da Constituição, e que na prática, vale tanto quando o ‘volte sempre’ escrito em saquinho de padaria. Claro, ela ainda fez questão de ressaltar que 90% dos brasileiros são evangélicos ou católicos, defecando em cima das minorias religiosas, e até mesmo dos ateus, uma suposta supremacia cristã aparentemente inquestionável, de acordo com a moça.

Finalmente, para surfar na polêmica mais recente, Rachel Sheherezade rasgou o resto da fantasia democrática que vestia, ao defender a manutenção do deputado e pastor Marco Feliciano na presidência de Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Começando seu editorial com o coitadismo já demonstrado anteriormente, ela evoca que a liberdade de crença é um direito constitucional, e que não podemos confundir o pastor Marco Feliciano com o deputado. Como acredito que Rachel tenha aprendido pesquisa de pauta durante sua carreira, só posso crer que ela é mal intencionada ao ignorar que quem confunde as duas atribuições é o próprio deputado, inclusive ao tentar explicar porque paga pastores de sua igreja como ‘assessores parlamentares’, que não dão expediente em Brasília e nem em nenhum escritório político.

Na sequencia de falácias, que parece ser uma marca da âncora do SBT, ela faz questão de reafirmar que Marco Feliciano foi eleito democraticamente como deputado. E quem questionou o mandato (cheio de acusações de crimes) de Feliciano enquanto deputado? Novamente, uma pesquisa de pauta, mesmo que simples, apontaria que os protestos contra ele, classificados por Rachel como ‘gritaria’, são para que ele deixe a presidência da CDHM, e não seu mandato como deputado. E que fique claro para a jornalista que Feliciano não foi ‘democraticamente eleito’, mas estrategicamente colocado no cargo com a complacência de parlamentares do PT, PMDB, PSDB, PSB e DEM, dando 10 cargos da comissão ao PSC, ignorando os critérios de representatividade regimental dos partidos nas comissões. Foi apenas um acordo político, e não uma ‘eleição democrática’.

Pra fechar com chave de ouro, a jornalista ainda tem a pachorra de dizer que não se pode confundir as OPINIÕES PESSOAIS, por mais polêmicas que sejam, de Marco Feliciano com sua atuação como parlamentar. E desde quando essa separação é feita para qualquer ocupante de cargo público no Brasil? Quando um parlamentar dá entrevista, participa de um evento público ou emite QUALQUER opinião, quem está falando é o PARLAMENTAR, além do cidadão. Não há botão que alterne o político e o cidadão, e este, quando eleito, está 24 horas por dia investido do cargo para qual foi empossado. As opiniões de Feliciano, Sheherezade, não são ‘polêmicas’: são homofóbicas, machistas, misóginas, racistas, intolerantes com religiões minoritárias, reforçam estereótipos e preconceitos contra estas minorias, dando base para todo tipo de ação violenta (física ou psicológica) contra elas.

A defesa ensandecida por fundamentalistas religiosos como Marco Feliciano tem agradado reacionários de todos os campos, como o colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, e o também pastor (e igualmente homofóbico) Silas Malafaia. Em Sheherazade, os reacionários de toda sorte encontram o eco para suas ideologias tortas e segregacionistas, que raramente encontrariam em outros jornalistas na grande imprensa (ao menos, não de forma tão explícita).

Democraticamente, não torço que Sheherezade saia do ar, pois acredito que ela realmente seja o eco de uma parcela da sociedade que, de uma forma ou outra, vai encontrar um canal para dar vazão ao seu chorume intolerante. Só espero que, amanhã e depois, os sons deste eco, carregado de moralismo e discriminação seja cada vez mais difícil de escutar em meio a gritos e cantos que louvem a igualdade, a diversidade e o amor incondicional a humanidade.

<<< Atualização >>>

No dia em que posto este texto, a jornalista Rachel Sheherezade nos brinda com mais um editoral cheio de conservadorismo religioso e poucos argumentos contra o aborto. Sem apontar um motivo plausível para que o aborto de fetos até 12 semanas não seja permitido, ela apela para todo o tipo de falácia: desde dizer que os médicos estariam propondo a mudança por interesses financeiros até tendo a coragem de comparar mulheres a NINHOS DE PÁSSAROS! É, Sheherezade realmente estudou a fundo as cartilhas conservadores, reacionárias e contra as liberdades da minorias.

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Indigência intelectual, ‘homossexuais criminosos’ e a imprensa homofóbica

Na tentativa desesperada de alguns detratores dos direitos LGBT em desqualificar toda uma gama de pessoas que tem em comum apenas seus afetos dissonantes da sociedade heteronormativa, vale qualquer arma. Alguns preferem a velha e boa torção de declarações alheias, como dizer que um deputado ‘fere o estado laico’, ao dizer, em entrevista, que foi eleito pelos Orixás. Outros usam a mentira mesmo, atribuindo declarações que nunca foram feitas, criando pretensões nunca aspiradas pelos movimentos sociais e fazendo leituras tortas dos artigos de leis que garantem a cidadania de minorias. Mas uma categoria bem específica de homofóbico é o que tenta atribuir a homossexualidade características, delitos e estereótipos que em nada tem a ver com a sexualidade em si.

Durante este semana, alguns perfis conhecidos de fundamentalistas religiosos nas redes sociais fizeram um esforço para tentar ligar a orientação sexual de um casal gay ao fato deste casal ter agredido e torturado o filho adotivo, de cinco anos. Exceto em casos de agressão motivada por orientação sexual ou identidade de gênero, nenhuma destas características é relevante para o contexto de matérias jornalísticas, e é neste ponto que grande parte da imprensa colabora com o reforço de estereótipos negativos de homossexuais.

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Ora, o que a orientação sexual do casal colabora no contexto da reportagem? O mesmo tipo de agressão e violência doméstica contra crianças não acontece com casais heteros cotidianamente? Dizer que o casal adotivo da criança tem alguma outra função no texto, além de tentar reforçar os estereótipos de que casais homossexuais são menos capazes de criar crianças do que casais heterossexuais? Se tivesse, outras centenas de matérias sobre abuso sexual ou violência contra crianças também deveria deixar claro, no título, que os agressores tratam-se de heterossexuais.

Munidos de matérias que enfatizam a orientação sexual de agressores de crianças, homofóbicos de toda sorte ecoam a elação óbvia que a imprensa entrega mastigada: a criança só foi agredida porque o casal era gay, ignorando o número assustadoramente maior de heterossexuais que comentem o mesmo crime.

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O problema desta elação preconceituosa, além de ser falsa, é que ela abre o precedente para que possamos fazer o mesmo tipo de correlação a crimes cometidos por pastores, por exemplo. Posso dizer que todos os evangélicos são pedófilos porque alguns pastores abusaram sexualmente de jovens (aqui, aqui e aqui)? Ou posso então afirmar que pastores evangélicos são moralmente inferiores, já que alguns deles (aqui, aqui e aqui) cometeram crimes? Devo julgar todos os pastores da mesma forma que um acusado de estelionato, de usar mandato público em detrimento de sua igreja e por pedir a senha do cartão de crédito de um fiel? Por motivos óbvios, claro que não!

Homens, mulheres, brancos negros, indígenas, gays, travestis, heteros, cristãos, muçulmanos, umbandistas, jornalistas, psicólogos, médicos, pastores, jovens e idosos cometem crimes, mas o simples fato de pertencer a um destes grupos ou a qualquer outro não é um fator relevante para alguém cometer um crime. Não há determinismo em um crime, mas sim uma série de fatores diferentes que antecedem a sua execução.

Tentar usar qualquer característica de um criminoso como fator determinante para o crime em si serviu para discriminar negros, indígenas, religiões minoritárias, nordestinos, ciganos, moradores dos subúrbios e das favelas, além de homossexuais, e para justificar qualquer violência contra esses grupos, como negar direitos e cidadania. São preconceitos abjetos como estes que criaram estereótipos deformados, e que escavaram ainda mais o abismo entre as minorias e o resto da sociedade no Brasil. Cabe a todos nós tapar este abismo com dignidade, humanidade e verdade.