Diversidade, em todos os sentidos

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Em menos de uma semana, fui bloqueado pela segunda vez no Facebook. Nas duas, fiz postagens que alcançaram um grande alcance (uma teve 20 mil compartilhamentos, a outra chegou a quase 50 mil), ambas falando sobre como os direitos dos LGBT são desrespeitados sistematicamente.

No primeiro post, falava sobre o caso da atriz Viviane Beleboni, que é travesti, e que encenou Jesus Cristo durante a Parada do Orgulho LGBT deste ano. Na montagem, reproduzida abaixo, falei sobre a morte cotidiana de travestis e transsexuais no Brasil, o país que mais mata por identidade de gênero no mundo, e que empurra este grupo para a margem da sociedade.

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O post foi reproduzido em comunidades e páginas de combate a transfobia, e rapidamente chamou a atenção de fundamentalistas religiosos, ofendidos por ter uma mulher de peito de fora interpretando seu messias, mas ignorando solenemente que a denúncia feita por Beleboni e pelo meu post falavam sobre uma violência muito mais real do que a alegada violência simbólica sofrida por religiosos pretensamente ofendidos.

Resultado: tive posts denunciados por nudez que nem foto exibiam, e que foram denunciados para o Facebook. Este, por sua vez, mostra-se extremamente inócuo em julgar o que viola seus códigos de conduta, e me bloqueou por um dia. Os relatos de posts apagados de forma arbitrária e ativistas de movimentos sociais bloqueados sem terem descumprido nenhuma das normas da rede social se acumulam.

Poucos dias depois, um outro post denunciando violência contra LGBT, e que alcançou uma grande popularidade, foi alvo de ataques. No texto, eu falava sobre a morte do menino Rafael Melo, morador de Cariacica (ES), assassinado aos 14 anos de idade por conta de sua orientação sexual. A foto postada, que estampou as principais capas dos jornais e sites capixabas, mostrava o corpo de Rafael, sem detalhes ou, principalmente, elementos grotescos. Apenas seu pequeno corpo de criança, jazendo no meio da rua.

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No texto, eu pedia desculpas para Rafael por não ter feito nada por ele, e sem para as outras milhares de crianças mortas por conta de uma afetividade que muitas vezes não chegaram nem a viver, mas que já as condenou a morte. Foram quase 70 mil compartilhamentos apenas neste post, sem contar as pessoas que reproduziram o texto de outras formas em suas páginas e grupos. Novamente, dezenas de denúncias e agora três dias sem poder utilizar o Facebook.

Os dois casos em menos de uma semana mostra como postagens de combate a intolerância a gays, lésbicas, bissexuais e e transgêneros são alvo de verdadeiros esquadrões censores, formados com conservadores, reacionários e fundamentalistas evangélicos, em sua maioria. Aproveitando-se da fragilidade do sistema de denúncia do Facebook, estes grupos promovem uma verdadeira limpeza em posts que denunciam a violência que estes mesmos defendem, incentivam, promovem. Assim, na rede social mais popular do ocidente, estes grupelhos fazem o que gostariam de fazer em larga escala: silenciam quem denuncia os crimes que seus iguais cometem.

Ao mesmo tempo, centenas de milhares de páginas promovendo discurso de ódio, pregando a indignificação de grupos minoritários e trabalhando ativamente contra os diretos destas pessoas, seguem ativas, contrariando o mesmo código de conduta do Facebook, que vedaria o discurso de ódio.

Como é impossível lutar contra um dos maiores grupos de comunicação do mundo na atualidade, e muito menos impedir que estes grupos pratiquem a censura contra a voz da diversidade, precisamos ampliar os espaços de voz. Vamos utilizar outros canais como base para nossos textos, imagens e vídeos, como o YouTube, o Tumblr, o Pinterest e o Instagram, onde estes grupos intolerantes atuam com menos voracidade. Vamos usar blogs e sites como apoio para que, ainda que nossas postagens no Facebook sejam apagadas, nossos textos sigam ativos a ajudando na desconstrução da intolerância de nossa sociedade.

A única coisa que acontecerá é acabarmos tendo um pouco mais de trabalho para manter nosso ativismo do cotidiano vivo. Mas pra quem nasceu gay e gordo, em uma sociedade que tenta arrancar todos os acessos a dignidade e direitos que pessoas como eu tem, pra quem tem ao seu lado aliados como mulheres, negros, pessoas com deficiência, indígenas e idosos, não há o que temer. Se enfrentamos a o sistema opressor que tenta nos esmagar todos os dias com maestria, não serão inquisidores digitais que calarão nossa voz.

A diversidade grita, camarada. Prepare seus ouvidos.

En equipo se resuelve cualquier contratiempo

Cuando te picamos, picamos al mismo tiempo

Sobre nuestra unidad no debe haber preguntas

Frente al peligro las hormigas mueren juntas

Calle 13

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[PorAlexandre Perger]

Após muitos protestos, deve ocorrer ainda esta semana a renúncia do pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. A saída é uma estratégia do próprio Partido Social Cristão para evitar um desgaste ainda maior que a figura do parlamentar pode gerar. Com a possível queda do pastor, o PSC deve indicar outro deputado, entre os cinco da legenda que compõe a comissão, para a cadeira. As perguntas que ficam são: qual deles tem um passado ilibado e maior identificação com a defesa dos direitos humanos?

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Na prática, a mudança não será grande. A favorita para assumir a CDHM é a vice-presidente da comissão, deputada Antônia Lúcia (PSC-AC), que possui um currículo digno de seu antecessor. A parlamentar chegou a ter o mandato cassado no final de 2011, a pedido do Ministério Público Federal. Ela foi acusada ainda de compra de votos, falsidade ideológica com finalidade eleitoral, formação de quadrilha, peculato, falso testemunho e fraude processual. Na última segunda-feira, o Ministério Público entrou com mais uma ação contra Antônia Lúcia, desta vez por improbidade administrativa. Antes de ser eleita, ela teria recebido do marido, o também deputado Silas Câmara, uma linha telefônica pós-paga da Câmara dos Deputados.

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Os outros três parlamentares do PSC na comissão também enfrentam denúncias e processos judiciais, pelos mais diversos motivos. A cantora gospel e deputada Lauriete Rodrigues (PSC-ES) é acusada de nepotismo cruzado, já que seu irmão, Levi Rodrigues Pinto, trabalha no gabinete do marido, o senador Magno Malta (PR-ES). Levi foi admitido em junho de 2011, como assistente parlamentar, com um salário de R$ 5 mil, além de outros benefícios como auxílio alimentação, transporte, e diárias por jornada extra. Em sua defesa, Lauriete disse que seu irmão não é empregado da Câmara dos Deputados, e a sua contratação não pode ser considerada nepotismo.

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Contra o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA), pesa a rejeição da prestação de contas de uma das campanhas. As contas foram rejeitadas porque o deputado teria usado recursos que não transitaram pela conta bancária aberta para o registro da movimentação financeira da campanha e arrecadação de recursos. Além disso, o candidato teria arrecadado recursos no dia 6 de julho de 2006, antes, portanto, da obtenção dos recibos eleitorais, que foram entregues em 20 de julho de 2006.

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Para fechar, o parlamentar Hidekazu Takayama (PSC-PR) responde ao Supremo Tribunal Federal processo por crime de peculato. Entre os anos de 1999 e 2003, ele teria nomeado 12 funcionários fantasmas para seu gabinete, quando ainda era deputado estadual. Na verdade, todos trabalhavam de forma particular para o deputado e nunca receberam os salários referentes aos “trabalhos no gabinete.” Com isso, Takayama teria se apropriado do montante.

E pra você, qual o ‘favorito’ para assumir a comissão?

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O jornalismo é um retrato da sociedade, e indubitavelmente é palco de disputas ideológicas entre correntes políticas e filosóficas, entranhadas sob a máscara da ‘imparcialidade’. Neste palco, uma personagem vem ganhando destaque como representante de vozes reacionárias, conservadoras e fundamentalistas religiosas: a jornalista Rachel Sheherezade, âncora do telejornal SBT Brasil.

Ela tornou-se célebre nacionalmente por um comentário onde criticava o carnaval da Paraíba, estado onde nasceu e iniciou sua carreira como jornalista. Aos 39 anos, deixou seu estado natal para assumir a bancada do principal telejornal do SBT e lá, continuou a se posicionar de forma dura sobre diversos pontos, sempre deixando claro suas visões de mundo conservadoras, usadas ad nauseam por reacionários por todo o Brasil.

Num estado democrático de direito, não há problema nenhum que Rachel expresse seus pontos de vista, por mais infelizes que a maioria deles seja. O problema é que a jornalista utiliza a bancada do telejornal para reforçar estereótipos e para atacar princípios constitucionais como a laicidade do estado. Sobre a decisão da Justiça Federal de São Paulo em negar pedido do Ministério Público Federal para obrigar a União e o Banco Central a retirada expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, Rachel despejou suas falácias em relação ao tema, dizendo que o ‘cristianismo está sendo perseguido pelos defensores do estado laico, que voltaram sua ira contra a minúscula citação nas notas’. Ignorando a história da civilização, acusou os defensores da laicidade do estado de ingratidão com a doutrina que, segundo ela, inspirou os valores, a cultura e a própria constituição federal, esquecendo que o estado não possui religião e não expressa religiosidade, sendo esta de foro íntimo dos cidadãos.

Como esperado, após a primeira incursão no campo da religião, uma especialidade da jornalista, Sheherezade voltou a repetir as mesmas falácias esquizofrênicas de perseguição religiosa contra cristãos, em um país onde mais de 90% da população professa a mesma tendência religiosa, quando da decisão do Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que determinou a retirada de crucifixos e símbolos religiosos dos prédios da Justiça gaúcha. Vestida de um coitadismo ímpar, ela engrossou o coro de fundamentalistas religiosos, classificando a decisão acertada do TJ-RS de ‘intolerância religiosa’, questionando a laicidade do estado com o argumento inacreditável de que ‘a constituição foi promulgada sob a proteção de deus’, ignorando que a frase consta APENAS no preâmbulo da Constituição, e que na prática, vale tanto quando o ‘volte sempre’ escrito em saquinho de padaria. Claro, ela ainda fez questão de ressaltar que 90% dos brasileiros são evangélicos ou católicos, defecando em cima das minorias religiosas, e até mesmo dos ateus, uma suposta supremacia cristã aparentemente inquestionável, de acordo com a moça.

Finalmente, para surfar na polêmica mais recente, Rachel Sheherezade rasgou o resto da fantasia democrática que vestia, ao defender a manutenção do deputado e pastor Marco Feliciano na presidência de Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Começando seu editorial com o coitadismo já demonstrado anteriormente, ela evoca que a liberdade de crença é um direito constitucional, e que não podemos confundir o pastor Marco Feliciano com o deputado. Como acredito que Rachel tenha aprendido pesquisa de pauta durante sua carreira, só posso crer que ela é mal intencionada ao ignorar que quem confunde as duas atribuições é o próprio deputado, inclusive ao tentar explicar porque paga pastores de sua igreja como ‘assessores parlamentares’, que não dão expediente em Brasília e nem em nenhum escritório político.

Na sequencia de falácias, que parece ser uma marca da âncora do SBT, ela faz questão de reafirmar que Marco Feliciano foi eleito democraticamente como deputado. E quem questionou o mandato (cheio de acusações de crimes) de Feliciano enquanto deputado? Novamente, uma pesquisa de pauta, mesmo que simples, apontaria que os protestos contra ele, classificados por Rachel como ‘gritaria’, são para que ele deixe a presidência da CDHM, e não seu mandato como deputado. E que fique claro para a jornalista que Feliciano não foi ‘democraticamente eleito’, mas estrategicamente colocado no cargo com a complacência de parlamentares do PT, PMDB, PSDB, PSB e DEM, dando 10 cargos da comissão ao PSC, ignorando os critérios de representatividade regimental dos partidos nas comissões. Foi apenas um acordo político, e não uma ‘eleição democrática’.

Pra fechar com chave de ouro, a jornalista ainda tem a pachorra de dizer que não se pode confundir as OPINIÕES PESSOAIS, por mais polêmicas que sejam, de Marco Feliciano com sua atuação como parlamentar. E desde quando essa separação é feita para qualquer ocupante de cargo público no Brasil? Quando um parlamentar dá entrevista, participa de um evento público ou emite QUALQUER opinião, quem está falando é o PARLAMENTAR, além do cidadão. Não há botão que alterne o político e o cidadão, e este, quando eleito, está 24 horas por dia investido do cargo para qual foi empossado. As opiniões de Feliciano, Sheherezade, não são ‘polêmicas’: são homofóbicas, machistas, misóginas, racistas, intolerantes com religiões minoritárias, reforçam estereótipos e preconceitos contra estas minorias, dando base para todo tipo de ação violenta (física ou psicológica) contra elas.

A defesa ensandecida por fundamentalistas religiosos como Marco Feliciano tem agradado reacionários de todos os campos, como o colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, e o também pastor (e igualmente homofóbico) Silas Malafaia. Em Sheherazade, os reacionários de toda sorte encontram o eco para suas ideologias tortas e segregacionistas, que raramente encontrariam em outros jornalistas na grande imprensa (ao menos, não de forma tão explícita).

Democraticamente, não torço que Sheherezade saia do ar, pois acredito que ela realmente seja o eco de uma parcela da sociedade que, de uma forma ou outra, vai encontrar um canal para dar vazão ao seu chorume intolerante. Só espero que, amanhã e depois, os sons deste eco, carregado de moralismo e discriminação seja cada vez mais difícil de escutar em meio a gritos e cantos que louvem a igualdade, a diversidade e o amor incondicional a humanidade.

<<< Atualização >>>

No dia em que posto este texto, a jornalista Rachel Sheherezade nos brinda com mais um editoral cheio de conservadorismo religioso e poucos argumentos contra o aborto. Sem apontar um motivo plausível para que o aborto de fetos até 12 semanas não seja permitido, ela apela para todo o tipo de falácia: desde dizer que os médicos estariam propondo a mudança por interesses financeiros até tendo a coragem de comparar mulheres a NINHOS DE PÁSSAROS! É, Sheherezade realmente estudou a fundo as cartilhas conservadores, reacionárias e contra as liberdades da minorias.

Na tentativa desesperada de alguns detratores dos direitos LGBT em desqualificar toda uma gama de pessoas que tem em comum apenas seus afetos dissonantes da sociedade heteronormativa, vale qualquer arma. Alguns preferem a velha e boa torção de declarações alheias, como dizer que um deputado ‘fere o estado laico’, ao dizer, em entrevista, que foi eleito pelos Orixás. Outros usam a mentira mesmo, atribuindo declarações que nunca foram feitas, criando pretensões nunca aspiradas pelos movimentos sociais e fazendo leituras tortas dos artigos de leis que garantem a cidadania de minorias. Mas uma categoria bem específica de homofóbico é o que tenta atribuir a homossexualidade características, delitos e estereótipos que em nada tem a ver com a sexualidade em si.

Durante este semana, alguns perfis conhecidos de fundamentalistas religiosos nas redes sociais fizeram um esforço para tentar ligar a orientação sexual de um casal gay ao fato deste casal ter agredido e torturado o filho adotivo, de cinco anos. Exceto em casos de agressão motivada por orientação sexual ou identidade de gênero, nenhuma destas características é relevante para o contexto de matérias jornalísticas, e é neste ponto que grande parte da imprensa colabora com o reforço de estereótipos negativos de homossexuais.

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Ora, o que a orientação sexual do casal colabora no contexto da reportagem? O mesmo tipo de agressão e violência doméstica contra crianças não acontece com casais heteros cotidianamente? Dizer que o casal adotivo da criança tem alguma outra função no texto, além de tentar reforçar os estereótipos de que casais homossexuais são menos capazes de criar crianças do que casais heterossexuais? Se tivesse, outras centenas de matérias sobre abuso sexual ou violência contra crianças também deveria deixar claro, no título, que os agressores tratam-se de heterossexuais.

Munidos de matérias que enfatizam a orientação sexual de agressores de crianças, homofóbicos de toda sorte ecoam a elação óbvia que a imprensa entrega mastigada: a criança só foi agredida porque o casal era gay, ignorando o número assustadoramente maior de heterossexuais que comentem o mesmo crime.

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O problema desta elação preconceituosa, além de ser falsa, é que ela abre o precedente para que possamos fazer o mesmo tipo de correlação a crimes cometidos por pastores, por exemplo. Posso dizer que todos os evangélicos são pedófilos porque alguns pastores abusaram sexualmente de jovens (aqui, aqui e aqui)? Ou posso então afirmar que pastores evangélicos são moralmente inferiores, já que alguns deles (aqui, aqui e aqui) cometeram crimes? Devo julgar todos os pastores da mesma forma que um acusado de estelionato, de usar mandato público em detrimento de sua igreja e por pedir a senha do cartão de crédito de um fiel? Por motivos óbvios, claro que não!

Homens, mulheres, brancos negros, indígenas, gays, travestis, heteros, cristãos, muçulmanos, umbandistas, jornalistas, psicólogos, médicos, pastores, jovens e idosos cometem crimes, mas o simples fato de pertencer a um destes grupos ou a qualquer outro não é um fator relevante para alguém cometer um crime. Não há determinismo em um crime, mas sim uma série de fatores diferentes que antecedem a sua execução.

Tentar usar qualquer característica de um criminoso como fator determinante para o crime em si serviu para discriminar negros, indígenas, religiões minoritárias, nordestinos, ciganos, moradores dos subúrbios e das favelas, além de homossexuais, e para justificar qualquer violência contra esses grupos, como negar direitos e cidadania. São preconceitos abjetos como estes que criaram estereótipos deformados, e que escavaram ainda mais o abismo entre as minorias e o resto da sociedade no Brasil. Cabe a todos nós tapar este abismo com dignidade, humanidade e verdade.

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(Este questionário heterossexual reverte questões que são feitas com certa frequência por heterossexuais para gays e lésbicas. Ao responder este tipo de questão, muitos heterossexuais vão poder sentir um pouco da violência intelectual e emocional as quais muitos gays são submetidos ao ter que responder perguntas opressivas e discriminatórias que tem a heterossexualidade como referência).

  1. O que você acha que causou sua heterossexualidade?
  2. Quando e como você decidiu ser heterossexual pela primeira vez?
  3. Existe uma possibilidade de que seu heterossexualismo seja apenas uma fase, e que você possa supera-la?
  4. Existe a possibilidade de seu heterossexualismo seja um reflexo do medo que você sente por pessoas do mesmo sexo?
  5. Se você nunca dormiu com alguém do mesmo sexo, existe a possibilidade que tudo o que você realmente precise seja de uma boa noite de sexo gay para deixar o heterossexualismo?
  6. Pra quem você já revelou suas tendências ao heterossexualismo?
  7. Porque vocês heterossexuais sentem-se compelidos a atrair os outros para o seu ‘estilo de vida’?
  8. Porque você insiste em tentar esfregar seu heterossexualismo na nossa cara? Você não pode apenas ser o que você é e ficar quieto?
  9. Você iria querer que seus filhos fossem heterossexuais, mesmo com os problemas todos que eles poderiam encarar?
  10. A esmagadora maioria dos pedófilos e abusadores de crianças são heterossexuais. Você considera seguro deixar com que seus filhos sejam ensinados por professores heterossexuais?
  11. Mesmo com todo o suporte para o casamento entre pessoas do sexo oposto recebe, os números de divórcios seguem aumentando. Por que tão poucos casamentos heterossexuais são estáveis e duradouros?
  12. Por que os heterossexuais dão tanta ênfase ao sexo?
  13. Considerando a ameaça da superpopulação da terra, como a raça humana sobreviveria se todo mundo fosse heterossexual?
  14. Você acredita que um terapeuta heterossexual pode ser objetivo? Você não teme que um terapeuta assim possa estar inclinado a te influenciar na direção de suas próprias tendências?
  15. Quantitativamente, a maioria das doenças atinge heterossexuais ao invés de homossexuais. Você não acredita que isso seria um indicativo para que seja proibida a doação de sangue por pessoas com práticas sexuais como o heterossexualismo?
  16. Como você pode ser uma pessoa completa se limita exclusivamente ao compulsivo sexo heterossexual, e falha ao desenvolver seu natural e saudável potencial homossexual?
  17. A maioria dos pecados, na maioria dos livros religiosos, foram cometidos por heterossexuais. Você não acredita que este é um recado muito claro de Deus, de que o heterossexualismo é pecado e é um comportamento abominável, devendo ser evitado ao máximo, exceto para a reprodução?
  18. Temos observado que pouco heterossexuais são realmente felizes. Técnicas estão sendo desenvolvidas para permitir que você mude este panorama, se você realmente quiser. Você consideraria tentar uma terapia de reversão sexual, para abandonar o heterossexualismo?

(Tradução e adaptação do texto originalmente publicado aqui).

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João Pessoa é uma das dezenas de cidades brasileiras que recebe neste sábado (16) uma manifestação contra a eleição do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. A concentração do ato acontece a partir das 10h, no Parque Sólon de Lucena (Lagoa), ponto de partida dos manifestantes, que se deslocarão até Praça Rio Branco, no centro da cidade. A manifestação conta com o apoio de quase quarenta entidades, incluindo partidos políticos, movimentos sociais, órgãos públicos e entidades de classe.

Em carta, as entidades repudiaram a eleição de Marco Feliciano por entender que suas declarações ferem os princípios da laicidade do Estado Republicano e vão de encontro a Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Federal, reforçando e estimulando preconceitos e a intolerância contra grupos sociais, raciais e sexuais historicamente discriminados e marginalizados. Feliciano ganhou destaque nacional com declarações de cunho homofóbico e racista, chegando a dizer que ‘africanos eram descendentes amaldiçoados de Noé’ e que a AIDS é uma doença gay, além de se opor radicalmente à igualdade de direitos aos cidadãos LGBT.

As entidades que subscrevem a carta exigem que o Poder Legislativo reverta a escolha, destituindo o Deputado Feliciano desta Comissão, sob risco de, ao dificultar a defesa dos direitos humanos, comprometer o desenvolvimento do nosso Estado Democrático de Direito e frustrar a expectativa que toda a sociedade brasileira deposita nesta instituição. “Como um parlamentar com este perfil pode garantir que esta Comissão defenderá os direitos que o mesmo está violando? Como uma liderança religiosa, oriunda de uma crença que prega a igualdade e a tolerância, se expressa de forma contrária à fundamentação deste credo religioso?”, questiona a carta.

De acordo com o presidente do Movimento do Espírito Lilás, Renan Palmeira, uma das entidades que organiza o protesto, o evento expressa a unidade dos movimentos em direitos humanos e a luta pela consolidação dos ideais desses direitos. “Buscamos dizer, com centenas de vozes diferentes, ‘fora Marco Feliciano’, que é um fundamentalista religioso, conservador, cujas atitudes vão de encontro aos ideais dos direitos humanos e do estado laico”, disse Renan.

Subscrevem a carta o Movimento do Espírito Lilás (MEL), Coletivo Feminista (CUNHÃ), Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Marcha Mundial de Mulheres, Centro de Cultura Afro Brasileira Omidewa, Centro de Direitos Humanos da UFPB, Articulação de Juventude Negra da Paraíba, Ateliê Multicultural Elionai Gomes, União Brasileira de Mulheres (UMB/PB), Coletivo Desintoca, Consulta Popular, Frente Feminista, NEP – Flor de Mandacaru, Associação de Livres Pensadores da Paraíba (ALPP), Centro Dom Oscar Romero (CEDHOR), CEDH, Assembleia Popular (AP), Comissão de Direitos Humanos da OAB, Comissão de Direito Homoafetivo e da Diversidade Sexual da OAB, Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino Privado da Paraíba (SINTEENP), Conselho Regional do Assistente Social (CRESS), Igreja Metropolitana (ICM), Coordenadoria Municipal de Promoção a Cidadania LGBT e da Igualdade Racial, Núcleo de Direitos Humanos da UPFB (NDU/UFPB), Movimento Negro Organizado da Paraíba, Bamidelê – Organização de Mulheres Negras (OMN), Fórum Paraibano pela Igualdade Racial (FOPPIR), Rede de Mulheres de Terreiro, Federação dos Cultos Afros Brasileiros (FICAB), FEPUMCANJU, Ilê Tata do Axé, Setorial de Combate ao Racismo do PT-PB, Setorial LGBT do PT-PB, Comissão Setorial Municipal de Mulheres do PT-PB, PSOL, Setorial de Direitos Humanos do PV, Associação de Mulheres Trans da Paraíba (ASTRANS-PB), SOS Mata Atlântica, Associação Paraibana dos Amigos da Natureza (APAN), Sindicato das Domésticas de João Pessoa e APAE.

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Ninguém sai de um show de Ellen Oléria da mesma maneira que entrou. Ninguém sai impune dos versos próprios (já que todos os que ela canta, sendo de sua autoria ou não, são só dela) da cantora, compositora e atriz brasiliense de 30 anos, negra, lésbica, e fora dos padrões estéticos de capa de revista feminina. Letras que falam do dia a dia das minorias, do preconceito e da discriminação encontram brechas em temas de amor, paixão e do cotidiano de Ellen, batem fundo em quem sabe bem o que tudo isso significa na pele. Pouco antes do seu show em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, em João Pessoa (PB), conversei com a ganhadora da primeira edição do reality show The Voice Brasil, na companhia de sua namorada, assessora de imprensa e companheira de todas as horas, Poliana Preta.

Texto: William De Lucca

Fotos: William De Lucca e Ricardo Puppe

William De Lucca – Você é mulher, negra, lésbica e está fora dos padrões estéticos ‘cobrados’ numa sociedade machista, misógina, racista e homofóbica. A sua presença na mídia, por si só, já pode ser considerada uma subversão?

Ellen Oléria – Acho que isso é até uma unanimidade. Acho que sim, acredito que fui fazer uma bagunça lá no The Voice Brasil. Quando fui encontrar a equipe do programa pela primeira vez, pra fazer um registro, perguntaram o que eu ia levar ao programa. Ainda sem saber muito sobre como seria o formato, eu disse que discordava da frase de Gil Scott-Heron, de que a revolução não seria televisionada, porque se eu fosse pra TV ia ter revolução (risos). Foi mesmo, pelo menos na minha vida, que hoje é outra, minha vida deu uma reviravolta. Eu fico feliz de chegar na casa de tantas famílias como as nossas, um retrato tão colorido e diverso, e poder ver tantas gerações emocionadas com esse som.

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WL – Você já disse em algumas oportunidades que não gosta de falar sobre as vezes que sofreu preconceito, mas como você lida quando uma situação dessas de discriminação acontece?

EO – Eu não sei. É o tipo de coisa que, quando a gente põe os pés no chão de manhã e escolhe a roupa pra experienciar o dia, encontrar o sol ou ver a lua, a gente não se organiza pra uma situação de violência. Não é o que a gente espera encontrar, e esse é um dos motivos pelos quais eu não assisto TV, pra não ficar ‘fervendo’ esse tipo de noticia ruim em casa. Não quero pra mim, não quero pro meu dia, eu tô chamando outras coisas. Eu vou te dizer que ante a uma situação de violência, eu só posso reagir com o inusitado. Acho mesmo que muitas vezes uma defesa vira um ataque, um contra ataque. Muitas vezes eu não estou disponível pra ocupar a função de vitima social. A violência comigo não vai ter vez não, como diria minha mãe, “quem dá, leva saco pra trazer” (risos).

WL – A homofobia no Brasil tem cura?

EO – Acho que temos varias patologias sociais no Brasil, de toda sorte. Quando observo tantas formas de culto diferentes, entendo até que o homofóbico precisa ter um lugar no planeta, contanto que ele não me prejudique. Como disse a Rita Lee, “quem não esta do meu lado, que saia da minha frente”. Eu acho que cabe também o tal do homofóbico, mas o grande lance está em encontrar essas ideologias diversas e trazer pra um plano saudável nossas garantias de espaços de atuação. Outro dia, quando eu fui visitar minha mãe, peguei um ônibus e sentei do lado de um homem branco, careca, e quando me sentei ao lado dele, ele botou a mão na divisória dos bancos, pra mostrar uma tatuagem que marca ele como parte de um grupo que diz que me odeia. O que eu posso fazer? Eu também estou indo, estou no ônibus e eu também vou, acho que a gente vai ter que dividir este espaço (risos). Se eu estou incomodando ele, de alguma maneira ele também me incomoda, acho que a gente lida com estes incômodos. Desci tranquilamente do ônibus, cheguei em casa em segurança, ele também. Acho que pode ser por aí.

WL – Gilberto Freyre disse, no começo do século passado, que o Brasil vivia uma democracia racial. Hoje, em 2013, o quão errado você acredita que Freyre estava?

EO – Nem precisava pensar nisso no nosso tempo, vendo os livros de historia a gente percebe que a democracia racial é uma balela. Sem o inocentamento do outro não há a possibilidade de ‘polis’ inter-racial, pra gente estar junto a gente precisa inocentar. Não precisamos mais desse lugar de um algoz e uma vítima, as gerações que vieram antes de mim trouxeram um debate violento, muitas vezes populista. As próprias ferramentas institucionais ainda carregam os signos dessa construção de um projeto de nação que não é pra todo mundo. A gente tem recortes de gênero, raça, econômicos, de afetividades diversas, vivemos num pais com uma herança bizarra de perseguição e extermínio de várias correntes de pensamento. A gente tinha tantas línguas aqui, a nossa cultura seria muito mais diversa. Além de seguir sobrevivendo, eu sigo procurando minha paridade, onde estão meus pares, pra gente se manter viva.

WL – Você nunca foi militante de nenhum movimento social organizado. Ainda assim, você acredita que o ‘ativismo do dia a dia’ é tão importante para as conquistas da minoria quanto os movimentos organizados?

EO – Inclusive para esta conquista eu vou até me declarar lésbica, trazer a vista. A gente em Brasília usa muito lésbica ao invés de gay pra colocar a gente embaixo do holofote, ou sapatão (risos). Acho que sim, basicamente o que importa pra mim é o cotidiano, meu projeto politico impregna as ações do meu dia, determinam minhas ações no dia. Meu discurso está cheio disso também, minha musica, minhas conversas com meus amigos, minha dieta (vegana), acho que a gente vai testando. Uma hora a gente acerta o passo e vai ter mais possibilidades de dar as mãos.

WL – E você pretende casar? Ter filhos?

EO – Na verdade, a gente já casou umas 37 vezes. [WL – e no papel?] No papel? Ainda não chamam de casamento né? [WL – Lá no Distrito Federal já dá pra casar sim…] Ah, Poli, ele está perguntando se a gente vai casar, você quer casar comigo? (Ellen gritou pra namorada, Poli Preta, que saiu correndo para abraça-la e responder que quer sim casar). Então, a gente vai casar. Varias cerimonias, votos, de tudo um pouco.

WL – Você acredita que a gente pode ter um Brasil mais tolerante amanhã?

EO – A gente precisa acreditar. Sempre perguntam que legado a gente que deixar pros nossos filhos. Eu não tenho filhos, eu quero que seja hoje, não quero pensar nisso pro futuro não, eu quero já. A gente existe e, na verdade, isso não precisava nem ser pauta das nossas conversas, a gente tem de lidar com isso. A gente está aqui também e cabe todo mundo.

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