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Nota

Ellen Oléria: “Até o homofóbico tem seu lugar, contanto que não me prejudique”

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Ninguém sai de um show de Ellen Oléria da mesma maneira que entrou. Ninguém sai impune dos versos próprios (já que todos os que ela canta, sendo de sua autoria ou não, são só dela) da cantora, compositora e atriz brasiliense de 30 anos, negra, lésbica, e fora dos padrões estéticos de capa de revista feminina. Letras que falam do dia a dia das minorias, do preconceito e da discriminação encontram brechas em temas de amor, paixão e do cotidiano de Ellen, batem fundo em quem sabe bem o que tudo isso significa na pele. Pouco antes do seu show em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, em João Pessoa (PB), conversei com a ganhadora da primeira edição do reality show The Voice Brasil, na companhia de sua namorada, assessora de imprensa e companheira de todas as horas, Poliana Preta.

Texto: William De Lucca

Fotos: William De Lucca e Ricardo Puppe

William De Lucca – Você é mulher, negra, lésbica e está fora dos padrões estéticos ‘cobrados’ numa sociedade machista, misógina, racista e homofóbica. A sua presença na mídia, por si só, já pode ser considerada uma subversão?

Ellen Oléria – Acho que isso é até uma unanimidade. Acho que sim, acredito que fui fazer uma bagunça lá no The Voice Brasil. Quando fui encontrar a equipe do programa pela primeira vez, pra fazer um registro, perguntaram o que eu ia levar ao programa. Ainda sem saber muito sobre como seria o formato, eu disse que discordava da frase de Gil Scott-Heron, de que a revolução não seria televisionada, porque se eu fosse pra TV ia ter revolução (risos). Foi mesmo, pelo menos na minha vida, que hoje é outra, minha vida deu uma reviravolta. Eu fico feliz de chegar na casa de tantas famílias como as nossas, um retrato tão colorido e diverso, e poder ver tantas gerações emocionadas com esse som.

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WL – Você já disse em algumas oportunidades que não gosta de falar sobre as vezes que sofreu preconceito, mas como você lida quando uma situação dessas de discriminação acontece?

EO – Eu não sei. É o tipo de coisa que, quando a gente põe os pés no chão de manhã e escolhe a roupa pra experienciar o dia, encontrar o sol ou ver a lua, a gente não se organiza pra uma situação de violência. Não é o que a gente espera encontrar, e esse é um dos motivos pelos quais eu não assisto TV, pra não ficar ‘fervendo’ esse tipo de noticia ruim em casa. Não quero pra mim, não quero pro meu dia, eu tô chamando outras coisas. Eu vou te dizer que ante a uma situação de violência, eu só posso reagir com o inusitado. Acho mesmo que muitas vezes uma defesa vira um ataque, um contra ataque. Muitas vezes eu não estou disponível pra ocupar a função de vitima social. A violência comigo não vai ter vez não, como diria minha mãe, “quem dá, leva saco pra trazer” (risos).

WL – A homofobia no Brasil tem cura?

EO – Acho que temos varias patologias sociais no Brasil, de toda sorte. Quando observo tantas formas de culto diferentes, entendo até que o homofóbico precisa ter um lugar no planeta, contanto que ele não me prejudique. Como disse a Rita Lee, “quem não esta do meu lado, que saia da minha frente”. Eu acho que cabe também o tal do homofóbico, mas o grande lance está em encontrar essas ideologias diversas e trazer pra um plano saudável nossas garantias de espaços de atuação. Outro dia, quando eu fui visitar minha mãe, peguei um ônibus e sentei do lado de um homem branco, careca, e quando me sentei ao lado dele, ele botou a mão na divisória dos bancos, pra mostrar uma tatuagem que marca ele como parte de um grupo que diz que me odeia. O que eu posso fazer? Eu também estou indo, estou no ônibus e eu também vou, acho que a gente vai ter que dividir este espaço (risos). Se eu estou incomodando ele, de alguma maneira ele também me incomoda, acho que a gente lida com estes incômodos. Desci tranquilamente do ônibus, cheguei em casa em segurança, ele também. Acho que pode ser por aí.

WL – Gilberto Freyre disse, no começo do século passado, que o Brasil vivia uma democracia racial. Hoje, em 2013, o quão errado você acredita que Freyre estava?

EO – Nem precisava pensar nisso no nosso tempo, vendo os livros de historia a gente percebe que a democracia racial é uma balela. Sem o inocentamento do outro não há a possibilidade de ‘polis’ inter-racial, pra gente estar junto a gente precisa inocentar. Não precisamos mais desse lugar de um algoz e uma vítima, as gerações que vieram antes de mim trouxeram um debate violento, muitas vezes populista. As próprias ferramentas institucionais ainda carregam os signos dessa construção de um projeto de nação que não é pra todo mundo. A gente tem recortes de gênero, raça, econômicos, de afetividades diversas, vivemos num pais com uma herança bizarra de perseguição e extermínio de várias correntes de pensamento. A gente tinha tantas línguas aqui, a nossa cultura seria muito mais diversa. Além de seguir sobrevivendo, eu sigo procurando minha paridade, onde estão meus pares, pra gente se manter viva.

WL – Você nunca foi militante de nenhum movimento social organizado. Ainda assim, você acredita que o ‘ativismo do dia a dia’ é tão importante para as conquistas da minoria quanto os movimentos organizados?

EO – Inclusive para esta conquista eu vou até me declarar lésbica, trazer a vista. A gente em Brasília usa muito lésbica ao invés de gay pra colocar a gente embaixo do holofote, ou sapatão (risos). Acho que sim, basicamente o que importa pra mim é o cotidiano, meu projeto politico impregna as ações do meu dia, determinam minhas ações no dia. Meu discurso está cheio disso também, minha musica, minhas conversas com meus amigos, minha dieta (vegana), acho que a gente vai testando. Uma hora a gente acerta o passo e vai ter mais possibilidades de dar as mãos.

WL – E você pretende casar? Ter filhos?

EO – Na verdade, a gente já casou umas 37 vezes. [WL – e no papel?] No papel? Ainda não chamam de casamento né? [WL – Lá no Distrito Federal já dá pra casar sim…] Ah, Poli, ele está perguntando se a gente vai casar, você quer casar comigo? (Ellen gritou pra namorada, Poli Preta, que saiu correndo para abraça-la e responder que quer sim casar). Então, a gente vai casar. Varias cerimonias, votos, de tudo um pouco.

WL – Você acredita que a gente pode ter um Brasil mais tolerante amanhã?

EO – A gente precisa acreditar. Sempre perguntam que legado a gente que deixar pros nossos filhos. Eu não tenho filhos, eu quero que seja hoje, não quero pensar nisso pro futuro não, eu quero já. A gente existe e, na verdade, isso não precisava nem ser pauta das nossas conversas, a gente tem de lidar com isso. A gente está aqui também e cabe todo mundo.

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“Penso em me matar todos os dias”, diz homossexual ameaçado de morte por torcedores

Rommel Costa tem 27 anos, mora em Fortaleza (CE) e já pensou diversas vezes em se matar. O motivo? Uma foto tirada junto a um ex-namorado, onde usava a camisa da torcida organizada de um time de futebol cearense, onde Rommel era beijado e abraçado. Desde a publicação da foto, há seis anos, Rommel teve de largar a faculdade e passou a sofrer ameaças de morte pela internet, de torcedores de vários times cearenses. “Hoje eu tenho medo de sair de casa”, confessa.

A confusão começou quando o jovem ganhou de presente de sua tia, uma camisa de uma torcida organizada de o Ceará Futebol Clube, a Cearámor. Vez ou outra, Rommel usava a camisa, mesmo não sendo espectador assíduo de jogos de futebol e sem nunca ter assistido uma partida em um estádio. “No dia em que a foto foi tirada, em 2006, fui encontrar meu namorado em um shopping da cidade, e resolvi usar a camiseta. Estávamos andando de mãos dadas, quando uma moça se aproximou e perguntou se poderia tirar uma foto nossa”, relata.

De acordo com Rommel, a garota havia se apresentado como funcionária do Shopping Benfica, apesar de estar sem uniforme, e disse que a foto iria para uma campanha alusiva ao Dia dos Namorados. Na verdade, a jovem era funcionária da loja oficial de uma torcida rival, a Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), e divulgou as imagens na internet com frases de conteúdo homofóbico, inclusive incitando a violência contra Rommel e o namorado. “Depois de uma semana, recebi um telefonema de um amigo do Rio de Janeiro que viu as fotos na internet, e que elas estavam sendo enviadas para muita gente, inclusive para meus parentes e amigos. Além disso, fui constrangido por uma diretora do próprio shopping, que me disse que não deveria ter feito ‘aquilo no shopping dela”, revela.

Ele conta que depois que as fotos se espalharam pela internet, foi ameaçado diversas vezes, inclusive por integrantes da própria torcida do Ceará. “O líder de uma das torcidas disse no Orkut para que me encontrassem na cidade para me ‘apagar’ e ficaram marcando encontros para me agredir fisicamente. Minha vida foi um inferno durante mais de um ano. Mudei de telefone, parei de ir para a faculdade, tive de mudar muitos hábitos”, diz Rommel, que hoje trabalha em navios de cruzeiro, e passa a maior parte do ano em alto-mar.

Segundo ele, após dois anos de ameaças, os problemas diminuíram e só retornaram há alguns meses, com a popularização do Facebook no Brasil. “Sempre denuncio as postagens ofensivas, mas elas sempre reaparecem. Minha vida voltou a ser um inferno, algo terrível. Me ofendem por conta de uma maldita camisa, porque eu beijei meu namorado vestido com ela”, desabafa.

A pior parte ainda estava por vir. Ao procurar a Delegacia do 13º distrito de Fortaleza, Rommel ouviu que as postagens tratavam-se de ‘brigas infantis, coisa de internet’, e que ele estaria perdendo tempo caso tentasse levar as denúncias a diante. “Desde então, quase não saio de casa, durmo a base de remédios. Acho que esta situação é desumana, e tudo por conta da homofobia e do preconceito envolvendo torcidas de futebol”, finaliza o jovem. Hoje, Rommel, aos 27 anos, é mais um prisioneiro condenado a prisão perpétua pela homofobia no Brasil.

Re(post): Afinal, o que diz a lei de combate a homofobia?

 

Entre a extensa lista de citações do filósofo grego Aristóteles, uma é essencial para que todo este texto faça sentido: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Ser gay não é o único motivo que me faz acreditar que o projeto de lei substitutivo 122, de 2006, adiciona a discriminação aos homossexuais a lista de crimes da lei º 7.716 seja benéfico para toda a sociedade. O que me faz acreditar neste projeto é seu texto, claro, conciso e objetivo.

Ao contrário do que vociferam pastores evangélicos Brasil a fora, como Silas Malafaia e o senador Magno Malta (PR/ES), a PL122 não torna os gays uma ‘categoria intocável’. A discriminação por orientação sexual (homo/bi/trans e hetero) passa a incorporar o texto de uma lei já existente, que pune o preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero e sexo. Aprovada a modificação, a lei ganha o texto ‘orientação sexual e identidade de gênero’ como complemento.

A lei, que já cita uma extensa lista de crimes contra estas fatias da sociedade, adiciona ainda impedir ou proibir o acesso a qualquer estabelecimento, negar ou impedir o acesso ao sistema educacional, recusar ou impedir a compra ou aluguel de imóveis ou impedir participação em processos seletivos ou promoções profissionais para as pessoas negras, brancas, evangélicas, budistas, mulheres, nordestinos, gaúchos, índios, homens heterossexuais, mulheres homossexuais, travestis, transexuais… pra TODO MUNDO! Ou seja, a lei não cria artifícios para beneficiar apenas os gays, mas para dar mais garantias de defesa de seus direitos para toda a sociedade, da qual a comunidade gay está inserida.

O único artigo que cita diretamente novos direitos constituídos a homossexuais é o oitavo, que torna crime “proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãos”, deixando claro que os direitos são de TODOS, e não apenas de um grupo seleto de pessoas.

Mas e a liberdade de expressão?

O ponto mais criticado por evangélicos, especificamente, é a perda da liberdade de expressão. Ora, onde um deputado em sã consciência faria um projeto desta magnitude e não estudaria a fundo a constituição para evitar incompatibilidades? A PL122 apenas torna crime atos VIOLENTOS contra a moral e honra de homossexuais, o que não muda em nada o comportamento das igrejas neo-pentecostais em relação a crítica. Uma igreja pode dizer que ser gay é pecado? Pode. Assim como pode dizer que ser prostituta é pecado, ser promiscuo é pecado, ser qualquer coisa é pecado. A igreja pode dizer que gays podem deixar o comportamento homossexual de lado e entrar para a vida em comunhão com Jesus Cristo? Pode, claro! Tudo isso é permitido, se há homossexuais descontentes com sua orientação sexual, eles devem procurar um jeito de ser felizes, ou aceitando sua sexualidade ou tentando outro caminho, como a igreja, por exemplo.

Agora, uma igreja pode falar que negros são sujos, são uma sub-raça e que merecem voltar a condição de escravos? Pode dizer que mulheres são seres inferiores, que não podem trabalhar e estudar, e que devem ser propriedade dos maridos? Pode dizer que pessoas com deficiência física são incapazes e por isto devem ser afastadas do convívio social por não serem ‘normais’? Não, não podem. Da mesma forma, que igrejas não poderão dizer (mesmo porque é mentira) que ser gay é uma doença mental, que tem tratamento, que uma pessoa gay nunca poderá ser feliz e que tem de se ‘regenerar’. Isto é uma violência contra a moral e a honra dos homossexuais, e este tipo de conduta ofensiva será passiva de punição assim que a lei for aprovada.

O que a PL 122 faz é incluir. Ela não cria um ‘império Gay’, como quer inadvertidamente propagar um ou outro parlapatão no Senado. A PL 122 não deixa os homossexuais nem acima, nem abaixo da lei. Deixa dentro da lei. Quem prega contra a lei tem medo de perder o direito de ofender, de humilhar, de destruir seu objeto de ódio. Quem prega contra a PL 122 quer disseminar a intolerância. E tudo que nossa sociedade precisa hoje é aprender respeito e tolerância, e descobrir de uma vez por todas que é a pluralidade que torna nossas breves existências em algo tão extraordinário.