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Rachel Sheherazade: o eco reacionário e fundamentalista na TV

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O jornalismo é um retrato da sociedade, e indubitavelmente é palco de disputas ideológicas entre correntes políticas e filosóficas, entranhadas sob a máscara da ‘imparcialidade’. Neste palco, uma personagem vem ganhando destaque como representante de vozes reacionárias, conservadoras e fundamentalistas religiosas: a jornalista Rachel Sheherezade, âncora do telejornal SBT Brasil.

Ela tornou-se célebre nacionalmente por um comentário onde criticava o carnaval da Paraíba, estado onde nasceu e iniciou sua carreira como jornalista. Aos 39 anos, deixou seu estado natal para assumir a bancada do principal telejornal do SBT e lá, continuou a se posicionar de forma dura sobre diversos pontos, sempre deixando claro suas visões de mundo conservadoras, usadas ad nauseam por reacionários por todo o Brasil.

Num estado democrático de direito, não há problema nenhum que Rachel expresse seus pontos de vista, por mais infelizes que a maioria deles seja. O problema é que a jornalista utiliza a bancada do telejornal para reforçar estereótipos e para atacar princípios constitucionais como a laicidade do estado. Sobre a decisão da Justiça Federal de São Paulo em negar pedido do Ministério Público Federal para obrigar a União e o Banco Central a retirada expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, Rachel despejou suas falácias em relação ao tema, dizendo que o ‘cristianismo está sendo perseguido pelos defensores do estado laico, que voltaram sua ira contra a minúscula citação nas notas’. Ignorando a história da civilização, acusou os defensores da laicidade do estado de ingratidão com a doutrina que, segundo ela, inspirou os valores, a cultura e a própria constituição federal, esquecendo que o estado não possui religião e não expressa religiosidade, sendo esta de foro íntimo dos cidadãos.

Como esperado, após a primeira incursão no campo da religião, uma especialidade da jornalista, Sheherezade voltou a repetir as mesmas falácias esquizofrênicas de perseguição religiosa contra cristãos, em um país onde mais de 90% da população professa a mesma tendência religiosa, quando da decisão do Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que determinou a retirada de crucifixos e símbolos religiosos dos prédios da Justiça gaúcha. Vestida de um coitadismo ímpar, ela engrossou o coro de fundamentalistas religiosos, classificando a decisão acertada do TJ-RS de ‘intolerância religiosa’, questionando a laicidade do estado com o argumento inacreditável de que ‘a constituição foi promulgada sob a proteção de deus’, ignorando que a frase consta APENAS no preâmbulo da Constituição, e que na prática, vale tanto quando o ‘volte sempre’ escrito em saquinho de padaria. Claro, ela ainda fez questão de ressaltar que 90% dos brasileiros são evangélicos ou católicos, defecando em cima das minorias religiosas, e até mesmo dos ateus, uma suposta supremacia cristã aparentemente inquestionável, de acordo com a moça.

Finalmente, para surfar na polêmica mais recente, Rachel Sheherezade rasgou o resto da fantasia democrática que vestia, ao defender a manutenção do deputado e pastor Marco Feliciano na presidência de Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Começando seu editorial com o coitadismo já demonstrado anteriormente, ela evoca que a liberdade de crença é um direito constitucional, e que não podemos confundir o pastor Marco Feliciano com o deputado. Como acredito que Rachel tenha aprendido pesquisa de pauta durante sua carreira, só posso crer que ela é mal intencionada ao ignorar que quem confunde as duas atribuições é o próprio deputado, inclusive ao tentar explicar porque paga pastores de sua igreja como ‘assessores parlamentares’, que não dão expediente em Brasília e nem em nenhum escritório político.

Na sequencia de falácias, que parece ser uma marca da âncora do SBT, ela faz questão de reafirmar que Marco Feliciano foi eleito democraticamente como deputado. E quem questionou o mandato (cheio de acusações de crimes) de Feliciano enquanto deputado? Novamente, uma pesquisa de pauta, mesmo que simples, apontaria que os protestos contra ele, classificados por Rachel como ‘gritaria’, são para que ele deixe a presidência da CDHM, e não seu mandato como deputado. E que fique claro para a jornalista que Feliciano não foi ‘democraticamente eleito’, mas estrategicamente colocado no cargo com a complacência de parlamentares do PT, PMDB, PSDB, PSB e DEM, dando 10 cargos da comissão ao PSC, ignorando os critérios de representatividade regimental dos partidos nas comissões. Foi apenas um acordo político, e não uma ‘eleição democrática’.

Pra fechar com chave de ouro, a jornalista ainda tem a pachorra de dizer que não se pode confundir as OPINIÕES PESSOAIS, por mais polêmicas que sejam, de Marco Feliciano com sua atuação como parlamentar. E desde quando essa separação é feita para qualquer ocupante de cargo público no Brasil? Quando um parlamentar dá entrevista, participa de um evento público ou emite QUALQUER opinião, quem está falando é o PARLAMENTAR, além do cidadão. Não há botão que alterne o político e o cidadão, e este, quando eleito, está 24 horas por dia investido do cargo para qual foi empossado. As opiniões de Feliciano, Sheherezade, não são ‘polêmicas’: são homofóbicas, machistas, misóginas, racistas, intolerantes com religiões minoritárias, reforçam estereótipos e preconceitos contra estas minorias, dando base para todo tipo de ação violenta (física ou psicológica) contra elas.

A defesa ensandecida por fundamentalistas religiosos como Marco Feliciano tem agradado reacionários de todos os campos, como o colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, e o também pastor (e igualmente homofóbico) Silas Malafaia. Em Sheherazade, os reacionários de toda sorte encontram o eco para suas ideologias tortas e segregacionistas, que raramente encontrariam em outros jornalistas na grande imprensa (ao menos, não de forma tão explícita).

Democraticamente, não torço que Sheherezade saia do ar, pois acredito que ela realmente seja o eco de uma parcela da sociedade que, de uma forma ou outra, vai encontrar um canal para dar vazão ao seu chorume intolerante. Só espero que, amanhã e depois, os sons deste eco, carregado de moralismo e discriminação seja cada vez mais difícil de escutar em meio a gritos e cantos que louvem a igualdade, a diversidade e o amor incondicional a humanidade.

<<< Atualização >>>

No dia em que posto este texto, a jornalista Rachel Sheherezade nos brinda com mais um editoral cheio de conservadorismo religioso e poucos argumentos contra o aborto. Sem apontar um motivo plausível para que o aborto de fetos até 12 semanas não seja permitido, ela apela para todo o tipo de falácia: desde dizer que os médicos estariam propondo a mudança por interesses financeiros até tendo a coragem de comparar mulheres a NINHOS DE PÁSSAROS! É, Sheherezade realmente estudou a fundo as cartilhas conservadores, reacionárias e contra as liberdades da minorias.

Indigência intelectual, ‘homossexuais criminosos’ e a imprensa homofóbica

Na tentativa desesperada de alguns detratores dos direitos LGBT em desqualificar toda uma gama de pessoas que tem em comum apenas seus afetos dissonantes da sociedade heteronormativa, vale qualquer arma. Alguns preferem a velha e boa torção de declarações alheias, como dizer que um deputado ‘fere o estado laico’, ao dizer, em entrevista, que foi eleito pelos Orixás. Outros usam a mentira mesmo, atribuindo declarações que nunca foram feitas, criando pretensões nunca aspiradas pelos movimentos sociais e fazendo leituras tortas dos artigos de leis que garantem a cidadania de minorias. Mas uma categoria bem específica de homofóbico é o que tenta atribuir a homossexualidade características, delitos e estereótipos que em nada tem a ver com a sexualidade em si.

Durante este semana, alguns perfis conhecidos de fundamentalistas religiosos nas redes sociais fizeram um esforço para tentar ligar a orientação sexual de um casal gay ao fato deste casal ter agredido e torturado o filho adotivo, de cinco anos. Exceto em casos de agressão motivada por orientação sexual ou identidade de gênero, nenhuma destas características é relevante para o contexto de matérias jornalísticas, e é neste ponto que grande parte da imprensa colabora com o reforço de estereótipos negativos de homossexuais.

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Ora, o que a orientação sexual do casal colabora no contexto da reportagem? O mesmo tipo de agressão e violência doméstica contra crianças não acontece com casais heteros cotidianamente? Dizer que o casal adotivo da criança tem alguma outra função no texto, além de tentar reforçar os estereótipos de que casais homossexuais são menos capazes de criar crianças do que casais heterossexuais? Se tivesse, outras centenas de matérias sobre abuso sexual ou violência contra crianças também deveria deixar claro, no título, que os agressores tratam-se de heterossexuais.

Munidos de matérias que enfatizam a orientação sexual de agressores de crianças, homofóbicos de toda sorte ecoam a elação óbvia que a imprensa entrega mastigada: a criança só foi agredida porque o casal era gay, ignorando o número assustadoramente maior de heterossexuais que comentem o mesmo crime.

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O problema desta elação preconceituosa, além de ser falsa, é que ela abre o precedente para que possamos fazer o mesmo tipo de correlação a crimes cometidos por pastores, por exemplo. Posso dizer que todos os evangélicos são pedófilos porque alguns pastores abusaram sexualmente de jovens (aqui, aqui e aqui)? Ou posso então afirmar que pastores evangélicos são moralmente inferiores, já que alguns deles (aqui, aqui e aqui) cometeram crimes? Devo julgar todos os pastores da mesma forma que um acusado de estelionato, de usar mandato público em detrimento de sua igreja e por pedir a senha do cartão de crédito de um fiel? Por motivos óbvios, claro que não!

Homens, mulheres, brancos negros, indígenas, gays, travestis, heteros, cristãos, muçulmanos, umbandistas, jornalistas, psicólogos, médicos, pastores, jovens e idosos cometem crimes, mas o simples fato de pertencer a um destes grupos ou a qualquer outro não é um fator relevante para alguém cometer um crime. Não há determinismo em um crime, mas sim uma série de fatores diferentes que antecedem a sua execução.

Tentar usar qualquer característica de um criminoso como fator determinante para o crime em si serviu para discriminar negros, indígenas, religiões minoritárias, nordestinos, ciganos, moradores dos subúrbios e das favelas, além de homossexuais, e para justificar qualquer violência contra esses grupos, como negar direitos e cidadania. São preconceitos abjetos como estes que criaram estereótipos deformados, e que escavaram ainda mais o abismo entre as minorias e o resto da sociedade no Brasil. Cabe a todos nós tapar este abismo com dignidade, humanidade e verdade.

O medo é nosso, e não dos evangélicos, Marco Feliciano

O exagero dos deputados da Bancada Evangélica chega a ser engraçado, para não dizer ridículo, ante as demandas dos homoafetivos. Nesta semana, o deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) disse, em artigo publicado em seu site:

“Tal grupo (os homossexuais) representa uma minoria, não destas que sofrem de verdade, mas que sob uma camuflagem de perseguição, tenta e consegue impor seu modo de vida promíscuo, seus pensamentos anti-família e anti-bons-costumes (…) O que virá a seguir? Que Deus nos ajude! E nos ajude logo, antes que, esses fascistas, expulsem de uma vez Deus da nação brasileira, como buscam exterminar programações religiosas na TV”

Vou ignorar as falhas na argumentação do deputado, que normalmente carecem de ligação com a lógica e com os fatos. Vou ignorar que o Brasil é o líder do ranking mundial de mortes de homossexuais em crimes violentos e de natureza homofobia, e que esta discriminação é apenas a ponta de um iceberg de crimes de preconceito e de intolerância que não chegam à luz da justiça. Vou ignorar também o conceito de família do deputado (que também foi ignorado pelo STF ao aprovar a união homoafetiva) e de muitos fundamentalistas que se esquecem de atualizar seus conceitos morais para a atualidade, e que querem privar outros de fazê-lo. Vou ainda fazer vista grossa a utilização indevida do termo ‘fascista’ referindo-se a homossexuais, visto que os fascistas (com a conivência da grande maioria de instituições religiosas) mataram milhares de homossexuais durante a segunda guerra mundial (e ainda hoje), e seu espólio filosófico ainda inspira matadores de gays pelo Brasil.

Vou me ater apenas ao ponto central da argumentação de Feliciano: o medo de que os ‘homossexuais expulsem deus (e seus seguidores) do Brasil. A liberdade religiosa é uma clausula pétrea da Constituição Federal, que no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias.

Mesmo que um presidente homossexual (outro além da egodistônica Dilma Rousseff) assuma o poder, as liberdades religiosas estão garantidas. Mesmo porque, em nenhum momento, em nenhuma declaração pública, nenhum homossexual (que eu tenha registro) falou contra as liberdades religiosas, não importando a crença ou denominação. O problema é que muitas destas denominações não querem apenas viver suas ideologias, mas as impor sobre toda a sociedade, de forma autoritária e (aí sim) fascista. Não compete ao Estado ou a Constituição versar sobre o que é pecado e sobre os conceitos infundados de família que A ou B tenham criado, mas garantir os direitos humanos a todos, independente de crença, baseados na liberdade individual e no que há de mais moderno no mundo em relação a estes direitos.

Agora, os direitos dos homossexuais (inclusive de existir ou de morar no Brasil) podem ser ameaçados se um grupo fundamentalista assumir o poder. O medo tem de ser nosso e não dos evangélicos. O que garante que um presidente evangélico não possa ‘proibir relações entre pessoas do mesmo sexo’? O que garante que uma maioria absoluta no congresso não torne homossexualidade uma doença e o tratamento compulsório? Mesmo sem maioria, eles já querem fazer tal absurdo, através do projeto de lei do Deputado Federal João Campos (PSDB-GO), usando truques de lingüística simplistas chamando a cura de ‘tratamento’, sem buscar no dicionário o significado de ‘tratamento’.

O que nos garante que teremos direitos assegurados com uma maioria de fundamentalistas no poder, se hoje já não temos direitos respeitados? Como esperar que a discriminação contra LGBTs cesse, se não ensinarmos as gerações futuras a beleza da diversidade entre as pessoas? Sem a aprovação de um projeto que torne obrigatório o ensino de orientação sexual e identidade de gênero nas escolas públicas e particulares, obviamente adequadas a realidade pedagógica de cada jovem, nunca sairemos deste ciclo vicioso de homofobia e preconceito.

Como seus pensamentos em looping, os fundamentalistas querem que a existência dos homossexuais seja miserável, para poder então ‘curá-los’, aumentar seus rebanhos, e consequentemente seus lucros. Os LGTB seriam sempre discriminados por terem seus direitos (inclusive a vida) negados por pessoas que não aceitam a diversidade. E estas pessoas não aceitam ou compreendem a diversidade porque não forem EDUCADAS para tal, pois nem em casa ou escola ensinam isso.

A falta de coerência nos argumentos do Deputado Marcos Feliciano é aterradora, e a forma como ele tenta manipular as massas que o seguem também. O medo de perder direitos civis, de perder a dignidade, de perder o emprego, de perder o abrigo em casa, de perder os amigos, a família, de perder dentes, de ter ossos quebrados, de perder a vida em um beco de uma cidade qualquer, é NOSSO, deputado. Porque este medo real, e não hipotético, já faz parte do cotidiano de todos os gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais brasileiros.

O Papa fala o que quer e os católicos não querem ouvir nada!

 

A polêmica envolvendo as declarações recentes do papa Bento XVI e as contestações do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) movimentou hoje um embate de “Trending Topics” no Twitter brasileiro.

De um lado, manifestantes religiosos católicos subiram a hashtag “#RetrateseDepJeanWyllys”, em tentativa de pressionar o deputado Jean Wyllys a se retratar por suas contestações ao papa. O pontífice, em seu discurso de ano novo a diplomatas de cerca de 180 países disse que a união homossexual é um “tema crucial” e que ameaça a humanidade. Quando o papa disse isso publicamente, ofendeu e desrespeitou, na sua dignidade humana, milhões de pessoas homossexuais no mundo inteiro.

Em resposta às declarações de Bento XVI Wyllys informou, em 09/01, pelo Twitter, que “Bento XIV – o papa suspeito e acusado de ser simpatico ao nazismo – disse que o casamento civil igualitario é uma ameaça à humanidade”, e protestou, logo em seguida, contra essa declaração do papa: “Ameaça ao futuro da humanidade são o fascismo, as guerras religiosas, a pedofilia e o abusos sexuais praticados por membros da Igreja.”

O fato de o “#RetrateSeDepJeanWyllys” ter aparecido em segundo lugar nos Trending Topics parece ter gerado o resultado contrário àquele pretendido pelos manifestantes religiosos. Além de Wyllys não ter se retratado, o movimento acabou por gerar uma onda de apoio espontâneo ao deputado.

Não demorou muito para que uma nova hashtag – a “#RetrateSePapa” – superasse o lugar da anterior, aparecendo em primeiro lugar. Grande parte dos posts com a hashtag de apoio a Wyllys vinha acompanhada de #casamentoigualitario, em referência à proposta de emenda constitucional (PEC) pelo casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, formulada pelo deputado.

Saiba mais sobre o tema neste link: http://jeanwyllys.com.br/wp/jean-wyllys-explica-o-discurso-do-papa

Edith Modesto: “Ninguém foi preparado para ter filhos gays”

 

Alguns pais não conseguem aceitar a homossexualidade dos filhos, e outros chegam ao extremo da violência física, psicológica e até expulsam os filhos de casa. A reação da professora universitária e doutora em semiótica Edith Modesto foi diferente. Mãe de sete filhos ela fundou, em 1997, o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), cujo objetivo principal é aproximar os pais de seus filhos gays, após descobrir que seu filho mais novo era gay. Com a intenção de compreender melhor a sexualidade do próprio filho, Edith conseguiu ir além: ajudou e ajuda centenas de pais de homossexuais a aprender a lidar com este tema ainda tão delicado. Em entrevista exclusiva ao Eleições Hoje, Edith fala sobre homofobia, relacionamento entre pais e filhos, e diz que homossexuais precisam ser mais politizados e votar em gays e lésbicas.

 

Como começou o teu projeto junto aos pais dos homossexuais?

Edith Modesto – O projeto para ajudar pais e jovens LGBTs começou há mais de 20 anos, logo que fiquei sabendo que meu sétimo filho, o caçula, é homossexual. Éramos somente 4 mães.

 

Vencer os seus próprios preconceitos foi uma das maiores dificuldades?

Edith Modesto – Sem dúvida. Preconceito gruda como chiclete no cabelo e ele é internalizado em todos nós, inclusive nos próprios LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgêneros).

 

Como os pais encaram, em geral, a homossexualidade dos filhos?

Edith Modesto – Os pais, no início do processo de aceitação, conforme explico no meu livro “Mãe sempre sabe?” (Editora Record), encaram como uma desgraça que se abateu sobre eles. Ninguém foi preparado para ter filhos homossexuais (LGBTs), pois essa condição ainda não foi naturalizada entre nós.

 

Existem reações adversas, que chegam a violência física? Tem pais que se negam a participar do projeto mesmo com o pedido dos filhos?

Edith Modesto – Certamente, há pais que se negam a participar do projeto. A maioria, no início do processo, poucos não aceitam nunca. A violência doméstica é enorme no Brasil, por vários motivos. Em pesquisa feita pelo Instituto de Psicologia da USP, em parceria com as pesquisadoras do Laboratório da criança e adolescente (LACRI), aventamos a hipótese de que a violência doméstica contra os LGBTs é a maior atualmente. E a autoviolência é enorme também. Há muitas tentativas de suicídio entre jovens LGBTs, há um número menor de tentativas de suicídio entre as mães, mas também as há.

 

Você acha que a religião tem uma papel importante na não-aceitação de filhos homossexuais pro parte dos pais? Como você trabalha com isso?

Edith Modesto – A religião tem um papel importantíssimo na vida da maioria dos seres humanos. É uma pena que, em se falando de Deus, as pessoas possam ser homofóbicas! Ser religiosos dificulta muito a aceitação dos pais a filhos LGBTs. Mas, na maioria das vezes, com um trabalho de paciência e solidariedade, o amor aos filhos vence.

 

Você acredita que a homofobia aumentou no Brasil, ou apenas que há mais visibilidade sobre o assunto?

Edith Modesto – Eu penso que a homossexualidade está sendo naturalizada pouco a pouco no Brasil. Mas essa aceitação acirrou a homofobia de alguns. Por isso a violência contra os LGBTs recrudesceu. São os homofóbicos, desesperados, se Deus quiser, nos estertores da morte.

 

Você acredita que a condição de vida dos homossexuais progrediu nesta década? Em que aspectos ela ainda deixa a desejar?

Edith Modesto – Eu penso que a condição de vida dos homossexuais melhorou nessa década. Mas ainda falta muito. Principalmente na escola e nos lares. Hoje, já dá pra aceitar que o filho da vizinha é gay, mesmo que as amigas tenham pena dela. Mas, quando a questão entra em casa, é ainda difícil.

 

Quais são os maiores entraves para a conquista de benefícios por parte dos LGBTs, como casamento civil, lei contra a homofobia, etc?

Edith Modesto – A maior dificuldade atualmente, no meu entender, é a falta de politização dos gays. Os gays e lésbicas precisam votar em homossexuais, para formarem uma bancada que lute por eles! Afirmo isso, mesmo sabendo que não é tão simples esse empoderamento, considerando que os homossexuais, discriminados desde jovens, ficam com a autoestima baixa.

 

Você é favorável a uma lei que criminalize a homofobia?

Edith Modesto – Há muita necessidade de uma lei que criminalize a homofobia. Precisamos de uma bancada para lutar pelo PLC 122, porque qualquer tipo de discriminação e violência contra as diferenças é crime. Por que a violência contra os negros é crime e contra os LGBTs não é?

 

O que você acha dos tratamentos para ‘conversão de sexualidade’, existentes em muitas igrejas e consultórios psicologicos? Você acredita que elas causam danos no desenvolvimento da sexualidade dos jovens?

Edith Modesto – O tratamento de reversão já é considerado crime. Psicólogos que fazem isso perdem seus diplomas. Mas o problema é mais complexo. Precisamos de disciplinas nas faculdades, não só de psicologia, sobre “diversidade de orientação sexual e diferenças de gênero”.

 

Você acha que a escola peca em ensinar para a diversidade sexual? Pesquisas apontam para um alto índice de homofobia nas escolas, como reverter esse quadro?

Edith Modesto – As escolas devem conversar com os jovens sobre a diversidade de orientação sexual, sem dúvida. Mas, novamente, essa ação tão importante, é de grande complexidade. Há que preparar capacitadores para os professores e considerar que qualquer ação na escola não terá resultados positivos se não envolver a comunidade. Assim, teremos de considerar as diferenças socioculturais das comunidades, das escolas, dos professores. Não adianta um kit educativo contra a homofobia, muito bem feito, se ele não for usado, isto é, se os professores não forem preparados e souberem e aceitarem usá-lo.

 

Acha que uma educação para a diversidade, falando sobre homossexualidade e transsexualidade poderia ‘influenciar’ a sexualidade de jovens que não são gays, como apregoam alguns pastores evangélicos?

Edith Modesto – De jeito nenhum! Eu creio que a diversidade de orientação sexual é uma condição natural e espontânea do ser humano.

 

O que você tem a dizer a um jovem homossexual que está descobrindo a sua sexualidade e não sabe como agir em relação a ela?

Edith Modesto – Eu teria o cuidado de acompanhar esse processo no ritmo do adolescente, considerando o preconceito já internalizado nele e as pressões familiares, escolares e sociais de modo geral que ele sofre.

 

E aos pais que descobrem que tem um filho gay, como agir, em linhas gerais?

Edith Modesto – Com os pais, temos de agir também com muita paciência e compreensão. NInguém foi preparado para ter filhos diferentes, na nossa cultura. O positivo, é que o amor, quase sempre, vence!

 

A aceitação da homossexualidade dos filhos vem com o tempo? Tem pais que nunca aceitam o fato?

Edith Modesto – Sim, a aceitação de um filho LGBT é um processo. Para alguns, mais rápido, para outros, mais lento. Poucos nunca aceitam o fato, muito poucos.

 

O Brasil é um país homofóbico? A gente já avançou muito em questões como o racismo, mas ele ainda existe e com força. Você acha que a gente mascara nossos preconceitos para que eles pareçam menores?

Edith Modesto – Eu ainda considero o Brasil um país homofóbico, mesmo que essa característica negativa esteja em processo de melhora. Eu penso que, atualmente, há um modismo e que o “politicamente correto” mascara bastante o preconceito e a homofobia que ainda existem, infelizmente. Mas está melhorando.

 

(Entrevista concedida a mim e publicada originalmente em http://www.eleicoeshoje.com.br/edithmodesto/#ixzz1igJscMHs)

Fundador de grupo de ‘cura de homossexuais’ que se assumiu gay decreta: “Ex-gay não existe”

(Entrevista concedida a mim, publicada originalmente no site Eleições Hoje que pode ser lida aqui)

Nada melhor do que um exemplo para refutar a eficiência de tratamentos para a conversão de orientação sexual, que dizem que gays podem se ‘converter’ em heteros. O professor de inglês, filosofia e teólogo carioca Sergio Viula, 42 anos, foi um dos fundadores do Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses), ONG evangélica que dá auxílio a pessoas que desejam abandonar a homossexualidade. Ele casou-se, teve dois filhos e viu de perto os métodos de ‘reorientação sexual’. Sergio conversou comigo com exclusividade, e mostra que os métodos de mudança de orientação sexual são ineficazes e causam dor e sofrimento a quem se dispõe a passar por qualquer deles.

Como começou sua vida junto à igreja evangélica? Como foi a sua entrada?

– Eu comecei aos 16 anos, numa igreja noepentecostal, mas depois migrei para a igreja batista. Eu me converti a partir da pregação de colegas, não era de família, que era católica. Hoje parte é católica e parte é evangélica.

Nessa época você já sabia que era gay? Já tinha tido relacionamentos com guris?

– Havia tido relacionamentos gays, sim, mas não assumia, eu pensava que fosse passageiro. Meu primeiro relacionamento foi aos 12 anos, com um garoto um pouco mais velho, de forma escondida, é claro, durante dois anos. Na verdade, queria pensar que tudo isso fosse passageiro, por causa das pressões em casa. Minha família era muito tradicional.

Como foi o processo de “virar ex-gay”?

– Na verdade, ex-gay não existe, é pura auto-sugestão. Eu comecei a ir à igreja e percebi que os homossexuais não tinham como lidar com suas ‘dificuldades’, por falta de orientação das lideranças, então decidi fundar o Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses), junto com João Luiz Santolin e Liane França. Foi aí que comecei realmente a dizer em momentos oportunos que era ex-gay.

Você nunca se convenceu que tinha virado ex gay? Sempre soube que estava se enganando?

– Hoje sei que estava me enganando. Na época, pensava que qualquer sentimento ou atração fosse mera ‘tentação’ e que isso poderia ser superado com oração e dedicação a deus. No grupo, basicamente, pensávamos que ser gay fosse pecado, que devia ser confessado e abandonado e para isso, fazíamos proselitismo, aconselhamento, oração, pregação, recomendávamos certos livros, leitura bíblica, coisas que os crentes geralmente fazem, mas com foco na homossexualidade, sempre demonizando a homoafetividade, infelizmente. Eu trabalhei com a igreja num total de 18 anos, o Moses começou em 1997, em 2003 eu estava fora, foram quase sete anos. Tínhamos psicólogos parceiros e contávamos com vários voluntários. Uma vez enchemos um ônibus e levamos para o Miss Brasil Gay em Juiz de Fora só para evangelizarmos os LGBT que foram ao evento, mas na diretoria eram cerca de 10 pessoas.

Mas como era esse processo de ‘abandonar o pecado’? Era como um tratamento?

– Isso não acontecia de fato, era o que se chamava discipulado, acaba sendo uma lavagem cerebral. Você tem que se isolar do seu antigo círculo de amigos, começar a se enfiar nas reuniões da igreja, fazer sessões de aconselhamento, orar, jejuar, essas coisas. Quando acontecia de alguém se envolver com outro homossexual, ele tinha que confessar o que fez, UMA LOUCURA DO CARALHO! Desculpe, mas ainda hoje tenho até raiva de lembrar disso.

Por que raiva?

– Ninguém deixava de ser gay, houve relacionamentos até dentro do grupo, entre uma atividade e outra da igreja, eles sempre arrumavam tempo pra isso. Você consegue imaginar quanto sofrimento para mim mesmo e para todos os que atuaram ou foram influenciados por esse trabalho? É irritante! E tem gente até hoje repetindo esse discurso imbecil.

O que tu sente quando vê pessoas como o pastor Silas Malafaia fazendo pregações do tipo que você fazia? É um discurso parecido? 

– Ele é um idiota! Eu era um garoto quando me envolvi com tudo isso, tinha pouquíssima experiência de vida e não ainda não havia tanta informação como hoje. Agora, ele atua na base da má-fé mesmo, com interesses financeiros, projetos de poder, etc. E diz ele que nunca foi gay, será? Fico muito desconfiado de gente que gasta tanta energia e dinheiro para combater algo que não tenha nada a ver consigo mesma. Entendo heterossexuais que compreendem os riscos da homofobia, mas não entendo heterossexuais que quase surtam só por saberem que os gays estão felizes, saudáveis e produzindo para o país…

Será que não é pra ter uma bandeira atualmente? Ganhar visibilidade, sei lá… 

– Não deixa de ser má-fé. Só confirma minha tese.

Quando você decidiu que era momento de parar? Você saiu do movimento ao mesmo tempo em que saiu do armário?

– Sim, saí ao mesmo tempo. Tudo aconteceu quando eu tive certeza de que já tinha feito e crido ao máximo. A gota d’água foi uma viagem a Cingapura, durante a qual conheci um filipino e fiquei com ele. Já voltei decido que iria colocar um fim nessa panacéia. Fiz isso e comecei imediatamente a repensar diversas das minhas posturas e crenças, levou ainda dois anos para que eu dissesse tudo o que digo até hoje. Houve perseguição por parte do Moses, muita gente ficou em choque, mas eles tiveram que se dobrar, pois minha atuação no movimento era grande. Minha maior projeção, porém, se dava na igreja. Eu era pastor, editor do jornal Desafio das Seitas, que teve seu auge durante minha atuação, e por aí vai…

E na sua família? Qual foi a reação?

– Houve um choque por parte dos meus pais, mas meus filhos nunca criaram problema, só ficaram perplexos, porque eu saí da igreja, já que eu era tão dedicado. Separei-me da mãe deles, mas isso não criava grandes problemas, aparentemente. Só me perguntaram francamente sobre o assunto aos 12 (ela) e aos 11 (ele). Ambos compreenderam numa boa e sempre foram meus amigos. Relacionam-se muito bem comigo e com meu parceiro Emanuel.

Você hoje se sente completo, feliz?

– Sim, hoje me sinto em paz comigo mesmo, feliz e me pergunto como pude ter suportado tanta castração inútil por tanto tempo.

Você acha que o que vocês faziam era uma violência, contra vocês mesmos, e contra os outros?

– Sim, era uma violência contra nós mesmos, por termos internalizado a homofobia que nos circundava desde cedo, e contra os outros, porque reproduzíamos essa mesma homofobia que eles mesmos já tinham internalizado. Só reforçávamos ainda mais isso.

Você não apenas largou a igreja, o movimento, como deixou de acreditar em deus… Como se deu isso? 

– Isso se deu em função de questionamentos honestos e ousados sobre deus/deuses, escrituras cristãs e de outras religiões, igreja e outras instituições religiosas. Meu pensamento e atitude com relação a ideia de deus/deuses não é mero fruto de sofrimento com essa ou aquela igreja ou crença. Na verdade, muitas igrejas se abriram para mim quando saí do armário e confessaram seu interesse em que eu, não só participasse da vida da igreja, como ministrasse como pastor dela. O próprio bispo fundador da Metropolitan Community Church, Troy Perry, me disse isso pessoalmente. Também não foi por ver mau comportamento de crentes em geral, uma vez que conheço alguns que considero pessoas fantásticas até hoje (tanto do mainstream evangélico e protestante, como das modernas igrejas inclusivas). Tendo isso em mente, nem deus, nem escrituras, nem igrejas passam pelo crivo da razão, e não me refiro à razão de uma mente brilhante como a de Nietzsche, Darwin, Sartre, Hopkins, Dawkins, etc., refiro-me à razão de uma mente mediana como a minha. Não posso ir contra mim mesmo e contra aquilo que enxergo tão distintamente. No entanto, defendo a liberdade. E por isso, crer e não crer são coisas que não podem ser controladas, coibidas, exceto quando colocam os direitos humanos em xeque.

Pra terminar, o que você diria pra um jovem gay que está passando por este processo de ‘cura espiritual da homossexualidade’? Vale a pena? 

– Conversão religiosa que não admite e CELEBRA sua homossexualidade não merece seu tempo e talento. Se quiser frequentar alguma comunidade, procure uma que tenha maturidade até para questionar a validade das assertivas religiosas. Mas, preferencialmente, viva sem depender de muletas existenciais quaisquer que sejam elas. Aproveito para sugerir a leitura de um post escrito por mim. Esse post nasceu do esboço de uma palestra que dei na Igreja Ecumênica de Copacabana por ocasião das comemorações do dia da Bíblia no calendário católico. Foi esse ano.

O divino direito de falar merda (ou Porque religiosos não entendem nada sobre gays)

O que se pede de um grupo de pessoas que participa de um debate? Quando é descompromissado, um debate pode envolver qualquer pessoa, de qualquer formação ou grau de instrução. Aquele bate-papo de bar, de ponto de ônibus, onde cada um fala o que quer, sem o compromisso nenhum com a veracidade ou a coerência dos argumentos. Mas, o que se pede em um debate técnico, científico?

De acordo com o e zoólogo, etnólogo e evolucionista inglês, Richard Dawkins, nossa sociedade se acostumou, de maneira muito cordial, com que as visões religiosas teriam algum direito automático e indiscutível a uma posição respeitável.

“Se eu quiser que alguém respeite meus pontos de vista sobre política, ciência e arte, terei que conquistar esse respeito por meio da argumentação, da justificação, da eloqüência ou do conhecimento relevante, (…) Porque não há limites para as opiniões religiosas? Por que nós temos que respeitá-las pela simples razão de que elas são religiosas?”, questiona o cientista.

A questão é muito relevante para o atual momento brasileiro. Por que pastores, padres e outros religiosos têm suas opiniões (ou dogmas) religiosas e validadas em áreas como psicologia, psiquiatria, sociologia e direito? Por que eles têm o direito (arduamente conquistado por outros) de debater em temas como direito dos homossexuais, casamento gay, leis contra a homofobia, se eles não tem os conhecimentos exigidos para discutir sobre os assuntos?

Em relação à homossexualidade, as opiniões de religiosos são especialmente levadas a sério. Pastores oferecem ‘curas e conversões’ de orientação sexual, mesmo que a psicologia e a psiquiatria garantam (com embasamento científico) de que orientação sexual é um processo complexo e não é passível de alteração. A Organização Mundial de Saúde, os conselhos federais de Medicina e de Psicologia, além de outras diversas entidades, proíbem tratamentos para mudança de orientação sexual, por não existir NENHUM indício em relação da eficácia dos mesmos, e que eles podem causar danos psicológicos severos.

Por que pastores, padres e outros religiosos têm de participar de mesas redondas, debates e comissões legislativas sobre casamento e união civil entre pessoas do mesmo sexo, se o único argumento e conhecimento para negar estes direitos são bíblicos e teológicos. Se as igrejas não são a favor a uniões entre gays, simplesmente não as celebrem, já que cada religião tem o direito de seguir os dogmas que achem mais convenientes. Mas a crença nestes dogmas não torna um religioso mais competente para discutir direitos constitucionais do que um pedreiro, um mecânico ou um engenheiro químico.

Em um país onde o fundamentalismo e o proselitismo religioso crescem assustadoramente e se enraízam nos espaços de poder, este tipo de intervenção (ignorante, no meu ponto de vista) será cada vez mais freqüente, e precisa ser cada vez mais combatido. O direito das religiões termina quando começam os direitos humanos, e ninguém tem o direito de interferir na vida de outrem por conta de seus preceitos religiosos. A discussão teológica sobre homossexualidade e os direitos dos homossexuais são válidos, mas devem ser considerados APENAS no âmbito teológico, e não, no âmbito legal e político. Afinal, o Irã (graças a deus), é bem longe daqui.