Diversidade, em todos os sentidos

Arquivo para abril, 2011

Estes que são contra os gays, são contra o que?

Sempre leio, diariamente, notícias sobre gênero, orientação sexual e temas correlatos, graças a filtros no Google e as informações postadas no Twitter. Esta clipagem feita todos os dias me dá acesso a uma amplitude de opiniões, contra ou a favor dos direitos LGBT, e o que me permite fazer uma análise sobre o principal argumento dos opositores dos direitos gays: perder o direito de criticar. Mas a pergunta que não quer calar é: sobre o que eles são contra?

De acordo com grupos de extrema-direita, políticos (falsos) moralistas e religiosos fundamentalistas, o problema é o comportamento “imoral” dos homossexuais. E por comportamento imoral citam a promiscuidade (na atualidade, comum entre jovens gays ou heteros) e a anti-naturalidade dos relacionamentos gays, que seriam imorais por serem contra as ‘leis de deus’.

Em detrimento do que diz a bíblia ou qualquer outro livro sem fundamentação teórica reconhecida por boa parte da comunidade cientifica, a orientação sexual é moldada por diversos fatores biológicos, como questões hormonais durante a gestação e predisposições genéticas, além fatores ambientais e culturais. Apesar de não haver consenso na comunidade cientifica sobre como seja formada a orientação sexual de uma pessoa, em um ponto, todas as teorias são unânimes: atração afetiva e sexual não se escolhe, não se molda e nem é passível de ser trocada. Seja hetero ou gay.
Então, assim como etnia ou gênero, a orientação sexual é uma característica inata, e não há escolha em nenhum momento de seu processo de formação, tornando o termo ‘opção sexual’ sem sentido. Esta característica inata da orientação sexual a torna sim, ao contrário do que dizem os fanáticos religiosos ou políticos acima, imune a críticas. Criticar ‘modo de vida dos homossexuais’ é tão genérico quanto criticar ‘modo de vida dos heterossexuais’, já a única característica obrigatoriamente em comum entre gays é sua atração afetiva e sexual por pessoas do mesmo sexo.

Dizer que ser gay é pecado, ok. Pra algumas religiões, comer carne de porco, mulheres comerem junto com homens ou até matar um inseto é pecado. Agora, julgamentos morais são outros quinhentos. Ao julgar um gay como ‘imoral’, ‘abominável’ ou ‘errado’, um religioso pode estar agredindo psicologicamente um homossexual de forma irreversível. É justo? Seria justo um negro ter de mudar de cor por conta de uma imposição religiosa em relação a ‘imoralidade da cor de sua pele’? Seria justo uma mulher ter de se vestir de homem pra ganhar o respeito da sociedade que a cerca? Teria ela de fingir ser o que não é para poder viver em paz?

Pois é isso que cobram alguns destes radicais que querem patrulhar as vidas privadas (e públicas) de outras pessoas. Que gays mudem seu ‘comportamento obsceno’ para satisfazer os delírios homofóbicos e segregacionistas de alguns. E querem manter seu direito de criticar abertamente uma característica inata de pessoas que não optaram por serem como são: apenas são. Assim como foi usada para justificar a submissão das mulheres ante aos homens e até a escravidão, a bíblia é usada contra os direitos dos homossexuais. Hoje, é inconcebível tentar qualquer argumento contra a igualdade entre gêneros e etnias. Quem sabe, o amanhã seja azul para os gays, também.


Anúncios

André Matarazzo, Diretor de ‘Não Gosto dos Meninos’: “A idéia é mostrar que as pessoas podem ser gays e felizes”

Ao mesmo tempo em que atos de violência contra homossexuais tornam-se cotidianos, ações contra a homofobia e a discriminação contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgênicos ganham força. Neste embalo, será lançado durante o mês de maio deste ano, o curta-metragem Não Gosto dos Meninos, dirigido e produzido pelo publicitário André Matarazzo e pelo produtor Gustavo Ferri.

O curta-metragem teve como principal inspiração a campanha internacional contra a homofobia “It Gets Better”, que reuniu depoimentos de gays, lésbicas e apoiadores dos direitos humanos, incluindo o Presidente dos EUA, Barack Obama. Na versão brasileira, o projeto reuniu 40 pessoas que contaram suas histórias de vida, completamente distintas com um objetivo comum: mostrar que são felizes sendo gay.

Por telefone, o Blog do @DeLucca conversou com Matarazzo, publicitário de 36 anos e dono da Agência Gringo, sobre como aconteceu a concepção do filme, sobre homofobia e preconceito.



William De Lucca – Muitos diretores escolhem o nome do filme depois que ele está pronto. Como surgiu o nome do filme? Como ele foi concebido?

André Matarazzo – Na verdade a gente queria um nome que não fosse muito evidente. O filme já tem uma mensagem muito evidente pra quem assiste, que é mostrar que a vida de pessoas gays é normal, super diversa, e que não é apenas o estereótipo mostrado pela mídia. Outro objetivo do filme é mostrar que, depois que você passa por um período mais complicado, de aceitação, você acaba se encaixando e sua vida fica uma delícia. Queríamos mostrar gente que tinha passado por isso e não queríamos usar nomes comuns como ‘Somos Todos Iguais’, ou coisa do tipo, já que isto estava muito claro na história. Então, resolvemos criar algo um pouquinho misterioso, que todo mundo está se perguntando: “Porra, vocês não são gays, não gostam de meninos?”. Ainda não vou revelar o que é exatamente, mas é bem interessante.
De Lucca – Como foi a seleção das personagens que compõe o curta?

Matarazzo – São quarenta pessoas entrevistadas durante o filme. Eu me interessei pelo projeto depois de ver aquele projeto americano “It Gets Better”, onde inclusive o pessoal da Produtora Pixar participou, e pensei que seria super legal fazer isso na minha empresa, que tem um ambiente super legal, todo mundo sabe que eu sou gay, meu namorado sempre vai lá. Mas, como lá só tem três ou quatro gays, achei que era pouca gente, não teria a força que tem um monte de gente, e eu queria passar uma mensagem legal pra esta geração nova que está aí e que não tem modelos. Pra que eles possam chegar e dizer ‘porra, posso ser igual a esse cara’. Daí, encontrei o Guga (Gustavo Ferri), que tem uma produtora e que já faz vários trabalhos para agências de publicidade e convidei-o para o projeto e ele topou na hora e fomos atrás de pessoas interessadas. Postei no blog da minha empresa, no facebook, que estávamos procurando gente para o filme, e muitas pessoas quiseram participar, tivemos mais de 400 interessados. Como fizemos as gravações todas em um dia, em São Paulo, alocamos uma hora pra cada um e não teríamos como dar espaço pra todo mundo, mas as pessoas ficaram muito interessadas em falar da sua vida, elas estão mais abertas e com menos medo.
De Lucca – Como você encara essa onda de ataques homofóbicos pelo Brasil? A que você atribui este aumento?

Matarazzo – Eu acho que isso é uma relação simples de visibilidade. Quanto mais natural uma coisa é, mais ameaçada fica a pessoa que é insegura sobre aquela coisa, como a sexualidade. Então quando você tem um grupo de gays sem nenhuma voz, nenhuma visibilidade e quando eles aparecem são alvos de chacota, é cabeleireiro bichinha, o costureiro da novela, tudo fica razoável, porque é um personagem cômico. Agora qu
ando você começa a mostrar além do personagem cômico, que esse cara gay pode ser teu irmão, o cara que trabalha com você, isso intimida muito, e aí começa um movimento contrário, de expulsão. Eles pensam “caralho, esses caras estão muito mais próximos do que eu imaginei, então eu vou dar porrada nesse filho da puta e mostrar quem é quem”. Acho que é um movimento que não tem retorno, acho que quanto mais visível isto tudo é mais ameaçado se sente quem não consegue lidar com as diferenças.

De Lucca – A Campanha It Gets Better teve uma adesão muito grande nos EUA, inclusive com a participação do Presidente Obama em um vídeo. Você acredita que um projeto como esse tenha uma adesão desse tipo no Brasil?

Matarazzo – Estamos fazendo algo um pouco diferente da campanha americana, nossa mensagem mais importante é mostrar que tinham pessoas com vidas normais, que não tem medo, e que vivem uma vida ótima, por mais que falem publicamente sobre sua orientação sexual. Nosso interesse não era arrancar pessoas do armário ou que as pessoas postassem vídeos dizendo ‘eu apoio a causa’, eu não queria isso. Imagina fazer um vídeo para um garoto de 15 anos, do interior de Santa Catarina, que tem modelos sobre ‘ser gay’ péssimos e que não pode nem imaginar que pode ser gay de forma natural, e que esse garoto possa imaginar “Caralho, olha essas pessoas, eu posso ser como um deles”. Este era nosso objetivo principal. Não vamos pedir para as pessoas fazerem os vídeos delas, participarem desta forma, ainda não estamos preparados pra isso agora, pode ser uma evolução, mas agora queremos passar esta mensagem.
De Lucca – Você acredita que este filme possa ter alguma influência política?
Matarazzo – Eu adoraria, mas não sei se isso vai acontecer. Nunca foi uma pretensão nossa, não somos militantes, nunca fiz nada com a temática gay, embora seja gay, o Gustavo não é gay, então não temos como interesse primário mexer com movimento político. Nossa intenção é ajudar uma pessoa que está precisando de apoio, de modelos, que está pensando que está fodido, sozinho no mundo, ele precisa ver este filme, só. Se isso acabar resvalando, tocando a opinião pública e ajudar em alguma outra coisa seria fenomenal, mas a gente não tem isso como interesse inicial.
De Lucca – Como será o lançamento do filme? Vocês já pensaram em um esquema para distribuição do filme?
Matarazzo – Não sabemos ainda a duração do filme, ainda estamos editando, mas ele deve ter entre 10 e 15 minutos. A distribuição vai ser da forma mais democrática possível, logo que for lançado ele estará disponível na internet pra que ele seja visto pelo maior número possível de pessoas, mas também queremos levá-lo para festivais, mostras, para que o filme tenha a maior visibilidade possível e possa ajudar muita gente.






Entrevista exclusiva: Jornalista Carol Almeida, criadora do #EuSouGay, fala sobre sucesso do projeto












Em duas horas, o debate sobre a homofobia e o preconceito entraram novamente na pauta da rede social que mais cresce na atualidade, o Twitter, mas desta vez, de forma positiva. O movimento afirmativo #EuSouGay, criado pela jornalista paulista Carol Almeida, 32 anos, alcançou o topo dos tópicos mais comentados no microblog em apenas duas horas, na tarde desta terça-feira (12). “Depois de criado o blog, onde postei pela primeira vez sobre o movimento, às 16h, a repercussão foi enorme. Às 18h, o #EuSouGay já estava no topo dos assuntos mais comentados e isso é muito bom”, afirma a jornalista, em entrevista por telefone.

Lésbica, Carol disse que sempre se sentiu incomodada com a violência contra homossexuais, mas que o caso do assassinato de Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, encontrada morta em Itarumã (GO), no último dia 6, a deixou transtornada. “Fiquei com esta história aberta no meu computador por algum tempo, e senti que precisava fazer alguma coisa. Foi aí que a idéia deste movimento ganhou força. Falei com colega de trabalho, que me incentivou, e fico muito satisfeita com a repercussão positiva até agora”, conta.

Adriele foi morta pelo fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, de 17 e 13 anos, e segundo o delegado que investiga o caso o crime teria sido motivado por homofobia, já que Adriele era namorada da filha do fazendeiro, que nunca admitiu o relacionamento.

A jornalista lembra também da onda crescente de crimes homofóbicos no Brasil, que registrou um aumento de mais de 30% em assassinatos de gays, lésbicas e travestis em 2010. “Me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão. Todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual e por isso este movimento é mais amplo, é para todos que abominam o preconceito”, diz.

Como estratégia para divulgar a causa, a jornalista usou as redes sociais, que rapidamente colocaram o assunto na pauta das discussões. “Pensamos inclusive no nome. Dizer ‘não’ é algo ruim, então a idéia é afirmativa e não negativa. Precisamos ter o entendimento entre as pessoas e entre as diferenças que existem entre elas, e respeitar estas diferenças. Falamos #EuSouGay, mas este é um movimento de afirmação para todas as minorias, que são extremamente discriminadas no Brasil”, explica Carol, revelando ainda que centenas de pessoas já enviaram fotos para o e-mail, inclusive celebridades, cuja os nomes ainda não serão divulgados. “Aos poucos vamos divulgando algum material no blog para o pessoal poder conferir quem está participando e apoiando o projeto”, adianta.

Como tudo aconteceu mais rápido do que o planejado, a idealizadora do projeto ainda não tem outras ações elaboradas, além da proposta original: a edição de um vídeo com as fotos enviadas pelas pessoas para o e-mail projetoeusougay@gmail.com, segurando um cartaz ou placa escrita #EuSouGay. “O vídeo será produzido pelo diretor Daniel Ribeiro, que tem me apoiado muito neste projeto, e acredita que ele tem tudo para dar certo. É preciso dar um rosto a este movimento contra a intolerância, repercutir este vídeo, inicialmente. Depois temos que leva-lo para a maioria de lugares possível, para que ele tenha um efeito social e principalmente político, inclusive em Brasília”, projeta Carol.

Daniel Ribeiro é um cineasta paulista, premiado em dezenas de festivais no Brasil e no exterior, e que dirigiu os curtas metragens Café com Leite (2007) e Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010). Os dois filmes têm temática LGBT.
Crescimento da homofobia

Em relaç
ão a onda de homofobia divulgada recentemente pela imprensa e pelas redes sociais, Carol acredita que o fenômeno não seja novo, mas que vem ganhando mais visibilidade nos últimos meses. “Acho que o ódio contra as minorias sempre existiu, mas nestes últimos anos as redes sociais têm aumentado o acesso as informações, e esta amplitude é um pouco assustadora, já que agora as pessoas se dão ao direito de mostrar quem elas são, inclusive as preconceituosas”, explica.

A jornalista espera ainda que o movimento #EuSouGay dê ainda mais visibilidade a outras ações de combate ao preconceito, e que fortaleçam ainda mais a luta pelos direitos LGBT no Congresso. “Os deputados que estão do nosso lado tem de trabalhar para que a lei contra a homofobia seja aprovada”, finaliza.

Não é homofobia, é analfabetismo



“Analfabeto funcional é a denominação dada à pessoa que, mesmo com a capacidade de decodificar minimamente as letras, geralmente frases, sentenças, textos curtos e os números, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos”.

A definição acima, a primeira encontrada no Google, dá conta de um fenômeno especialmente comum no Brasil. Segundo dados de 2005 do IBOPE, o analfabetismo funcional atinge 68% da população e que, somados aos 7% da população que é totalmente analfabeta resulta em 75% da população não possuir o domínio pleno da leitura e da escrita. Apenas um a cada quatro brasileiros é  plenamente alfabetizado.

As recentes declarações do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) trouxeram a tona uma característica comum nas personagens públicas que são declaradamente contra os direitos dos homossexuais e outras minorias: sua falta de capacidade em interpretar textos de forma racional.

Junto com outras figuras de capacidade intelectual duvidosa, como o pastor evangélico Silas Malafaia e o também pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP), Bolsonaro utiliza-se de trechos da bíblia para humilhar, oprimir e estigmatizar homossexuais. Um sinal claro de analfabetismo funcional, já que a bíblia teria sido escrita há mais de 1500 anos e em uma língua morta. Qualquer trecho bíblico pode ser interpretado de centenas de formas diferentes, já que existem diversas traduções para o livro, que fala sobre conceitos morais e sobre panoramas culturais muito diferentes do que vivemos hoje.

Em trechos da bíblia, a misoginia, o racismo e a escravidão são toleradas e até incentivadas, e nem por isso, ninguém se utiliza destes trechos para requisitar a volta da escravidão no Brasil. Da mesma forma em que relações entre dois homens e duas mulheres são citadas como ‘abominações’ (Levítico 18:12), conceito comum ao judaísmo que predominava na região, onde qualquer coisa que se opusesse as tradições da religião era considerada abominação.

Em alguns livros específicos, especialmente do Velho Testamento, como Êxodo e Levítico, ações moralmente condenáveis hoje eram tratadas com naturalidade, assim como era natural o preconceito contra homossexuais, conceito inexistente na época. Por exemplo, um pai poderia vender a filha como escrava (Êxodo 21:7), um homem não poderia ter qualquer tipo de contato com mulheres em período de ‘impureza menstrual’ (Levíticos 15:19-24), e que podemos ter escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas (Levíticos 25:44). Podemos justificar a escravidão, a tráfico de seres humanos e a misoginia com trechos bíblicos, assim como podemos justificar a homofobia. O problema é que hoje, estes conceitos são inconcebíveis no direito e na sociologia modernos.

(Pra completar, trechos bíblicos dizem que eu devo matar alguém que trabalhe no sábado, considerado sagrado (Êxodo 35:2), que comer moluscos é uma abominação (Levíticos 11:10), que não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão (Levíticos 21:20) e que homens não devem aparar a barba ou os cabelos (Levíticos 19:27), podendo ser punido com morte)

Usar trechos da bíblia ou de qualquer outro conjunto de códigos morais que não advenham da Constituição Federal para condenar a homossexualidade é um ato de ignorância. E entenda-se por ignorância não o desconhecimento em relação ao conteúdo bíblico, mas sim a tentativa de aplicar um texto escrito em um contexto cultural e social muito diferente do nosso em nossa sociedade moderna.

É como querer encaixar um cubo onde entra um círculo, naqueles testes que usam para macacos. Não entra, a menos que você quebre alguma coisa, ou a peça ou o brinquedo. E é isso que tentam grupos de extremistas religiosos ao impor seus conceitos morais, sempre mais nobres e justos que os demais, sobre toda a sociedade. E para a vergonha destes religiosos, até os macacos sabem que o quadrado não encaixa no circulo.