Diversidade, em todos os sentidos

Ao mesmo tempo em que atos de violência contra homossexuais tornam-se cotidianos, ações contra a homofobia e a discriminação contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgênicos ganham força. Neste embalo, será lançado durante o mês de maio deste ano, o curta-metragem Não Gosto dos Meninos, dirigido e produzido pelo publicitário André Matarazzo e pelo produtor Gustavo Ferri.

O curta-metragem teve como principal inspiração a campanha internacional contra a homofobia “It Gets Better”, que reuniu depoimentos de gays, lésbicas e apoiadores dos direitos humanos, incluindo o Presidente dos EUA, Barack Obama. Na versão brasileira, o projeto reuniu 40 pessoas que contaram suas histórias de vida, completamente distintas com um objetivo comum: mostrar que são felizes sendo gay.

Por telefone, o Blog do @DeLucca conversou com Matarazzo, publicitário de 36 anos e dono da Agência Gringo, sobre como aconteceu a concepção do filme, sobre homofobia e preconceito.



William De Lucca – Muitos diretores escolhem o nome do filme depois que ele está pronto. Como surgiu o nome do filme? Como ele foi concebido?

André Matarazzo – Na verdade a gente queria um nome que não fosse muito evidente. O filme já tem uma mensagem muito evidente pra quem assiste, que é mostrar que a vida de pessoas gays é normal, super diversa, e que não é apenas o estereótipo mostrado pela mídia. Outro objetivo do filme é mostrar que, depois que você passa por um período mais complicado, de aceitação, você acaba se encaixando e sua vida fica uma delícia. Queríamos mostrar gente que tinha passado por isso e não queríamos usar nomes comuns como ‘Somos Todos Iguais’, ou coisa do tipo, já que isto estava muito claro na história. Então, resolvemos criar algo um pouquinho misterioso, que todo mundo está se perguntando: “Porra, vocês não são gays, não gostam de meninos?”. Ainda não vou revelar o que é exatamente, mas é bem interessante.
De Lucca – Como foi a seleção das personagens que compõe o curta?

Matarazzo – São quarenta pessoas entrevistadas durante o filme. Eu me interessei pelo projeto depois de ver aquele projeto americano “It Gets Better”, onde inclusive o pessoal da Produtora Pixar participou, e pensei que seria super legal fazer isso na minha empresa, que tem um ambiente super legal, todo mundo sabe que eu sou gay, meu namorado sempre vai lá. Mas, como lá só tem três ou quatro gays, achei que era pouca gente, não teria a força que tem um monte de gente, e eu queria passar uma mensagem legal pra esta geração nova que está aí e que não tem modelos. Pra que eles possam chegar e dizer ‘porra, posso ser igual a esse cara’. Daí, encontrei o Guga (Gustavo Ferri), que tem uma produtora e que já faz vários trabalhos para agências de publicidade e convidei-o para o projeto e ele topou na hora e fomos atrás de pessoas interessadas. Postei no blog da minha empresa, no facebook, que estávamos procurando gente para o filme, e muitas pessoas quiseram participar, tivemos mais de 400 interessados. Como fizemos as gravações todas em um dia, em São Paulo, alocamos uma hora pra cada um e não teríamos como dar espaço pra todo mundo, mas as pessoas ficaram muito interessadas em falar da sua vida, elas estão mais abertas e com menos medo.
De Lucca – Como você encara essa onda de ataques homofóbicos pelo Brasil? A que você atribui este aumento?

Matarazzo – Eu acho que isso é uma relação simples de visibilidade. Quanto mais natural uma coisa é, mais ameaçada fica a pessoa que é insegura sobre aquela coisa, como a sexualidade. Então quando você tem um grupo de gays sem nenhuma voz, nenhuma visibilidade e quando eles aparecem são alvos de chacota, é cabeleireiro bichinha, o costureiro da novela, tudo fica razoável, porque é um personagem cômico. Agora qu
ando você começa a mostrar além do personagem cômico, que esse cara gay pode ser teu irmão, o cara que trabalha com você, isso intimida muito, e aí começa um movimento contrário, de expulsão. Eles pensam “caralho, esses caras estão muito mais próximos do que eu imaginei, então eu vou dar porrada nesse filho da puta e mostrar quem é quem”. Acho que é um movimento que não tem retorno, acho que quanto mais visível isto tudo é mais ameaçado se sente quem não consegue lidar com as diferenças.

De Lucca – A Campanha It Gets Better teve uma adesão muito grande nos EUA, inclusive com a participação do Presidente Obama em um vídeo. Você acredita que um projeto como esse tenha uma adesão desse tipo no Brasil?

Matarazzo – Estamos fazendo algo um pouco diferente da campanha americana, nossa mensagem mais importante é mostrar que tinham pessoas com vidas normais, que não tem medo, e que vivem uma vida ótima, por mais que falem publicamente sobre sua orientação sexual. Nosso interesse não era arrancar pessoas do armário ou que as pessoas postassem vídeos dizendo ‘eu apoio a causa’, eu não queria isso. Imagina fazer um vídeo para um garoto de 15 anos, do interior de Santa Catarina, que tem modelos sobre ‘ser gay’ péssimos e que não pode nem imaginar que pode ser gay de forma natural, e que esse garoto possa imaginar “Caralho, olha essas pessoas, eu posso ser como um deles”. Este era nosso objetivo principal. Não vamos pedir para as pessoas fazerem os vídeos delas, participarem desta forma, ainda não estamos preparados pra isso agora, pode ser uma evolução, mas agora queremos passar esta mensagem.
De Lucca – Você acredita que este filme possa ter alguma influência política?
Matarazzo – Eu adoraria, mas não sei se isso vai acontecer. Nunca foi uma pretensão nossa, não somos militantes, nunca fiz nada com a temática gay, embora seja gay, o Gustavo não é gay, então não temos como interesse primário mexer com movimento político. Nossa intenção é ajudar uma pessoa que está precisando de apoio, de modelos, que está pensando que está fodido, sozinho no mundo, ele precisa ver este filme, só. Se isso acabar resvalando, tocando a opinião pública e ajudar em alguma outra coisa seria fenomenal, mas a gente não tem isso como interesse inicial.
De Lucca – Como será o lançamento do filme? Vocês já pensaram em um esquema para distribuição do filme?
Matarazzo – Não sabemos ainda a duração do filme, ainda estamos editando, mas ele deve ter entre 10 e 15 minutos. A distribuição vai ser da forma mais democrática possível, logo que for lançado ele estará disponível na internet pra que ele seja visto pelo maior número possível de pessoas, mas também queremos levá-lo para festivais, mostras, para que o filme tenha a maior visibilidade possível e possa ajudar muita gente.






Comentários em: "André Matarazzo, Diretor de ‘Não Gosto dos Meninos’: “A idéia é mostrar que as pessoas podem ser gays e felizes”" (11)

  1. Anonymous disse:

    quero ver

  2. parece ser interessante super apoio a causa gay

  3. Bernardo disse:

    Mal posso esperar pelo lançamento, de Lucca!que ele faça a diferença, mostre que o amor nao deve incomodar.@21centavos

  4. Ótimo trabalho De Lucca. Eu Não Gosto dos Meninos promete. E tudo o que o André disse em relação aos ataques homofóbicos é a mais pura verdade. O ser humano tem medo daquilo que ele desconhece, e quando vê que o próprio irmão dele ou amigo é gay, usa da violência para mostrar “realmente quem é quem”. É uma cituação preocupante, mas que aos poucos, como estamos vendo, mudará. Parabéns ao André, ao blog e ao seu trabalho, Dê.

  5. Que excelente entrevista, De Lucca, parabéns! Já tínhamos sabido dessa iniciativa aqui no Brasil – dica do Tony Goes – e estávamos ansiosos para saber do andamento do projeto. Obrigado!Será que você nos autorizaria a reproduzir sua entrevista em nosso blog, como forma de divulgar o filme (com os devidos créditos, claro)?

  6. Anonymous disse:

    Achei um errinho no começo do texto. O certo é trangêneros, e não transgênicos.

  7. Anonymous disse:

    Ops, escrevi a correção errada hehehe *transgêneros

  8. otima entrevista… quando sai o filme?

  9. Anonymous disse:

    Adorei sua transparência e a leveza de ser!Se tratassemos as outras pessoas como se fossem nossas mães, filhos, filhas…o mundo estaria um pouco melhor!Foi legal conhecer você. Parabéns.Jac_Jan

  10. eu adorei o seu blog, por vc saber trabalhar com as palavras da maneira certa, eu ja sou seu fa cara , eu tenho muitas duvidas e queria que vc mim ajudasse em relaçao a homossexualidade, de uma olhada no meu blog por favor, sei que nao chega aos pes do seu , mas eu acho que vc vai gostar, um abraço

  11. […] segue o curta-metragem lançado ontem pelo publicitário André Matarazzo (entrevista com ele aqui) e pelo produtor Gustavo Ferri. O vídeo foi inspirado no projeto It Gets Better, que produziu […]

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