Diversidade, em todos os sentidos

O carioca Ferruccio Silvestro, depois de ser brutalmente agredido na saída de um bar gay, em Niterói (RJ)


Por dois dias inteiros, a hashtag #HomofobiaNão esteve entre as mais citadas no Twitter do Brasil. Por quase um dia inteiro esteve no topo desta lista, figurando nos trends mundiais, dando visibilidade à manifestação promovida por ativistas dos direitos LGBT e simpatizantes da causa, em referência aos ataques sofridos por homossexuais em São Paulo e no Rio de Janeiro durante a última semana. E de que esta visibilidade valeu ao combalido movimento de defesa dos direitos dos homossexuais e afins? Praticamente nada.

A visibilidade que a internet dá aos assuntos no Brasil é muito grande. Hoje, o Twitter e seus assuntos mais comentados pautam as redações dos veículos de comunicação tradicional, fenômeno que ficou claro durante as eleições deste ano, mais recentemente com o caso da bolinha de papel que atingiu o candidato derrotado a presidência, José Serra. Ganhar visibilidade na rede é importante, sem dúvida, mas a militância LGBT se reduz a praticamente este campo, e a explicação é simples: gays, de maneira geral, não protestam por seus direitos de forma efetiva. A prova deste lamentável fenômeno se explica por duas manchetes, ambas do site G1:

21/11/2010 – Manifestação contra homofobia reúne 200 pessoas na Avenida Paulista

14/06/2009 – Mais de três milhões participam de Parada Gay em São Paulo

Explicando.

Quando o evento é festivo, onde a Avenida Paulista se enche de DJs, drag queens e trios elétricos, milhões de homossexuais de São Paulo e dezenas de outros estados lotam as ruas da cidade, na maior micareta gay do mundo, que ano após ano vem perdendo sua significação.

Agora, se o evento tem realmente um caráter de protesto, onde os gays têm um espaço para buscar visibilidade na nossa mídia (onde somos quase transparentes), apenas 200 pessoas aparecem para gritar contra os absurdos ocorridos em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Esta falta de engajamento político e social da grande maioria dos homossexuais me faz acreditar que, na verdade, sofremos da “Síndrome da Mulher de Malandro”: gostamos de apanhar, gostamos de ser humilhados na escola, no trabalho, gostamos de ser tratados como aberrações por parte de grupos religiosos fanáticos, gostamos de ter nossos direitos civis extirpados, gostamos de não poder ter uma união civil estável com nossos parceiros, gostamos de sofrer bullying. Gostamos de humilhação. Gostamos de degradação. Gostamos de ser viadinho, boiola, baitola, bichinha, pederasta, sodomita. Gostamos de soco na boca, de lâmpada na cara, de chute nas costelas. Somos “mulheres de malandro” dos skin-heads, dos fascistas, dos neonazistas, dos preconceituosos e homofóbicos em geral.

Não vejo outra explicação além do comodismo, ou quem sabe o medo da violência, injustificado, pois a violência já está aí, batendo em nossas portas e na cara de nossos iguais. Em qualquer grupo social oprimido há a busca por direitos, por respeito e por dignidade. Em qualquer grupo que sofre, o sofrimento de seus iguais toca a todos, que se engajam na luta, de mãos dadas por um ideal em comum.

Mas não funciona assim com a comunidade LGBT, se é que é justo usar o termo comunidade para definir esse agrupamento de pessoas que, em comum, parecem ter apenas a orientação sexual. Pra gente, parece que nossa existência como LGBTs não tem nada a ver com a existência como LGBT de nosso vizinho. A morte de outro gay, apenas por ser gay, não nos afeta. A violência, como a que sofreu o carioca Ferrucio Silvestro, em 2007, que foi covardemente espancado na saída de uma balada, apenas por ser gay, não nos afeta. A demissão de nossos amigos gays, apenas por serem gays, não nos afeta. Tudo segue em nossas vidas tacanhas e individualistas.

Os poucos que saem do armário pra militância são chatos, desagradáveis, inconvenientes. Aqueles que lutam pela aprovação do Projeto de Lei 122/2007, pela união civil entre pessoas do mesmo sexo, pela adoção homoparental e pelos outros direitos que nos são extirpados todos os dias.

Os LGBTs precisam acordar. O bonde da história está passando, e nós não estamos nele. Os LGBT precisam acordar. E espero que isso aconteça logo. Espero que isso aconteça antes que uma lâmpada exploda na nossa cara, ou que um tiro atinja nossa barriga depois das paradas gays da vida.


William De Lucca Martinez

Jornalista

deluccamartinez@hotmail.com / http://www.twitter.com/delucca

Comentários em: "Militância LGBT e a Síndrome de Mulher de Malandro" (11)

  1. Argumentação impecável, como sempre.É muito cômodo, não é? Dizer que ” Eu sou um militante LGBT” escrevendo uma hashtag e colocando um arco-íris no avatar. Esperar que o outro vá as ruas resolver os nossos problemas por nós. Claro. Eu nunca apanhei. Quem foi pras ruas foram parentes e amigos dos que já sofreram com coisas do tipo. É ver a bola de vôlei cair dentro da nossa quadra, com um olhando pro outro pra ver quem vai defendê-la.Pensando por essa lógica, fazer o quê? Esperar até que o número de agredidos cresça consideravelmente, até que os parentes e amigos das vítmas criem volume nos movimentos sérios?Eu não vou esperar isso acontecer.

  2. Jock Dean disse:

    Excelente texto, Delucca. A verdade é que somos mais um agrupamento de castas distintas que uma comunidade de fato. Há os discretos, os afeminados, os trans, as travas, os bis, as lésbicas. Cada com objetivos diferentes. Cada um na sua sem querer conviver com o outro por medo (???) De ser estigmatizado. Um absurdo. Nos falta coesão. Unidade de fato. E sobra comodismo e preconceito de classe. Enquanto for assim pouca coisa (ou nada) vai mudar.

  3. Anonymous disse:

    Como o @Luiz_gx disse, Argumentação impecável.É realmente vergonhoso ver que a grande parte da nossa população LGBT realmente não LUTA por seus direitos, é muito facil ir na parada, fazer pegação, beber, dançar, curtir, mas e a movimentação? E o protesto? Muitos concideram a parada gay um carnaval de fim do ano, isso é mega triste sabe, simplismente algo que lutamos tanto pra concretizar tá perdendo o foco… Ninguem vai mudar nada apenas distribuindo camisinhas e tatuagens com o simbulo do arco-iris. E não é esperar movimentação ou parada gay para lutar e exigir os direitos, é sempre, não se pode relevar, porque relevação causa comodidade e comodidade deixa uma imagem de fragilidade ou medo e nós nao queremos isso. SOMOS FORTES COMO QUALQUER UM E VAMOS TER OS DIREITOS E SERMOS TRATADOS COMO QUALQUER SER HUMANO QUER A SOCIEDADE QUEIRA OU NÃO, PORQUE NÓS NÃO SOMOS ANORMAIS POR SERMOS DIFERENTES! SER DIFERENTE É NORMAL E A SOCIEDADE É DIVERSA, VAMOS REFLETIR ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS E NÃO PERMITIR MAIS MORTES E AGRESSÕES.

  4. Sinceramente, quando comecei a ler seu texto, achei que fosse mais um texto militante sem sentido, infundado e sem objetivo. Mas me surpreendi com os últimos parágrafos, onde você questiona o grupo e “Os poucos que saem do armário pra militância são chatos, desagradáveis, inconvenientes.” O ponto forte do seu texto.Por alguns anos tentei me envolver com a militância e estudar mais as questões de grupos sociais. Cheguei à conclusão que os homossexuais poderiam se tornar um grupo sim, porém, um grupo social deve andar coeso e unido por um bem comum, o que não ocorre e se perdeu durante a Parada Gay, como você citou. Todos sabem qual é o objetivo do Evento, mas ninguém se envolve.Outro motivo que me levou a desistir da militância, é que existiam muitos interesses partidários (isso mesmo, os políticos) que foram contra a minha investida de organizar o grupo Gay local, por muitas questões de corrupção, que mais tarde apareceram até na revista Veja.Gostaria de ver uma unidade maior em relação às questões LGBT, porém, são necessárias mais pessoas intelectualmente capazes de articular a política pública voltada para este seguimento, além de um resgate dos verdadeiros objetivos da Parada Gay, fundada para uma luta civil contra a discriminação.Parabéns pelo texto, excelente!Abraços.

  5. Absurdo tudo isso!!! Medieval, mesmo!!! Até quando as pessoas vão julgar as outras pela opção sexual, sem avaliar o caráter, a digninidade do ser humano?!… Belíssimo texto, William, parabéns!!

  6. Excelente texto :)Sobre a diferença de pessoas presentes na Parada Gay e em Protestos “sérios”, também pensei no medo da violência. E da exposição, claro. A Parada Gay reune milhares de pessoas, entre gays e heteros, uma grande festa. Digamos que ali, o sujeito se sinta camuflado, protegido.

  7. Adoro teus textos. Vc disse tudo o que eu penso aqui.Impressionante como a pessoa que milita e se preocupa em lutar de verdade por alguma coisa é tida como o chato do grupo.Já ouvi de muitos gays que eu devia relaxar mais, e olha que eu sou hetero.Quer dizer, só pq não foi contigo, nada disso é importante? Não foi contigo, então, vc pode fazer piada com a situação?Será que a pessoa não entende que pode ser o próximo a ser espancado sem motivo algum? Será que é tão difícil ficar revoltado com algo que nos atinge tão diretamente?Enfim, espero que isso mude porque, desse jeito, tá difícil. Eu vou tentando fazer a minha parte.

  8. Concordo plenamente com tudo que você disse no seu post. Uma visão ampla, e que qualquer pessoa de sã consciência, e perspicácia mental entenderia e diria o mesmo. Acho que você foi no ponto certo ao citar sobre as três milhões da parada e as 200 na passeata exigindo respeito. Belo texto, e meus parabéns.Não chegou nem aos pés do meu último, também sobre o mesmo assunto

  9. Primo Martinez,parabéns pelo texto,vc. escreveu tudo o que eu penso. Porém, a desmobilização e falta de cidadania é um fenômeno humano, como os homossexuais são humanos, não fogem à regra.Concordo inteiramente com vc.sobre a parada gay, dá muita visibilidade, mas também estigmatiza.Os políticos ou candidatos do coletivo homossexual, quando se candidatam o fazem para receber votos, pela sua bizarrice e não por serem os porta vozes de um segmento importante da sociedade.Adorei também a sua auto descrição, honesta e sensível. Você deve mesmo ser um partidão, não posso me candidatar, mas posso ser sua fã. Certo?Avelina Martinez

  10. Claro que pode, Avelina!Antes de tudo, quero amigos nesta vida! heheheOs candidatos da 'causa LGBT' são um caso a parte,e logo mais farei um texto sobre.

  11. Esqueceste de situar os LGBT's brasileiros dentro do contexto sociopolítico do povo brasileiro: apatia política. Esse comportamento apático, por mais desconcertante que seja, não é exclusivo de LGBT's, mas algo constante em toda nossa sociedade. São poucas as mulheres e negros a se envolver com a militância ou, mesmo fora dela, se propõe ma organizar algum tipo de manifesto.O não se importar com o outro é generalizado, infelizmente.

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