Diversidade, em todos os sentidos

Só quem é gay (ou LGBT, pra ser politicamente correto) sabe o quanto é difícil fazer o outing, ou seja, sair do armário da hipocrisia para um mundo heteronormativo hostil e que não respeita a diversidade. Muitos passam a vida vestindo e trocando as mascaras da conveniência e nunca abrem o jogo sobre sua orientação sexual, nem com seus amigos mais próximos. Uns não abrem o jogo nem pra si mesmos. Este medo (justificável, é verdade), talvez seja um grande impeditivo para a visibilidade e os avanços dos diretos dos LGBTs no Brasil.

A argumentação dos que falarão contrariamente ao chamado para que arrombemos as portas dos armários tem seus méritos. A sexualidade (e sua orientação) é um aspecto da vida privada de cada um, e ela deve manter-se neste âmbito, de acordo com o desejo de cada um. O que proponho aqui é um chamado aos que são bem resolvidos em relação a sua sexualidade e em como expressa-la. Também deixo claro que em alguns ambientes, as demonstrações deste tipo são temerosas, mas o risco existe em qualquer lugar, até nos ambientes mais amigáveis aos homossexuais.

O cineasta americano Michael Moore, em seu último filme, Sicko, fez um comparativo sobre a vida das pessoas com deficiência física nos Estados Unidos e nos Países Escandinavos. Ao chegar a Suécia, Moore ficou impressionado com a quantidade de pessoas com algum tipo deficiência física nas ruas, e foi questionar as autoridades locais sobre uma possível guerra ou surto de uma doença generativa. Ele descobriu que, na verdade, apesar de parecer em número muito maior nas ruas, a cidade tem um número de deficientes muito menor do que qualquer grande cidade americana, mas com uma diferença: eles saem nas ruas, são vistos. Eles existem.

A passagem ilustra meu ponto: gestos de afeto em público ajudam as pessoas a verem casais homossexuais como ‘normais’, mesmo dentro de um ambiente heteronormativo. Nós temos que existir, que marcar território, e gritar, silenciosamente, que estamos ali. Como diria meu pai, ‘quem não é visto, não é lembrado’. Respeitando os limites que todos nós gostamos de ver respeitados, já que hoje em dia casais heteros estão transando e se amassando em todos os cantos, nós, comunidade LGBT, devemos dar o exemplo, demonstrando publicamente nosso afeto, sem desrespeitar ninguém.

Andar de mãos dadas nas ruas, mesmo das cidades pequenas, dar um beijo carinhoso no namorado no restaurante, abraçar a namorada na fila do cinema, apresentar o ficante como ficante mesmo, e não como ‘amigo’. São pequenas ações que dão visibilidade a diversidade. São pequenas ações que demonstram que existem LGBTs em todos os cantos, de todos os jeitos, e que a homofobia, a intolerância e o preconceito não têm vez contra uma multidão que luta pela diversidade, pelo respeito e pelo amor.

Comentários em: "Arrombando a porta dos armários" (11)

  1. YeahConcordo plenamente.;D

  2. Anonymous disse:

    Vamos dominar o mundo /o/

  3. Não seria o caso de pedir aos “famosos” da tv que se assumam, para diminuir o preconceito?Eu fico imaginando aqueles adolescentes de interior, classe média baixa, morrendo de medo de se assumir, achando que a cidade inteira vai julgar, acusar, discriminar.Medo da igreja, medo da família, medo dos vizinhos.Imagina se o Evaristo Costa aparece e assume finalmente na tv: “é, eu sou gay.” Ou o Gianecchini? Fica muito mais fácil pro adolescente pobrinho do interior (e de todo lugar) se assumir e ser aceito pela família, vizinhos. “O cara famoso da tv também é.”Eu queria saber o que os gays acham disso, ou pelo menos você. Pra mim, parece terrivelmente lógico.

  4. O único vestígio do carnaval que eu gostaria que as pessoas levassem com elas durante os demais dias do ano é a alegria de viverem as suas vidas sem medo de ser julgadadas.Parabéns pelo post, Lu! (by Serra. HAHA). Paralelo à luta por nossos direitos, devemos também, de alguma forma, encorajar aqueles que ainda estão no armário a saírem e viverem uma vida plena com verdade, sem medo de ser feliz. =)

  5. Eu concordo. Eu acho que demonstrações de afeto aos poucos podem dar visibilidade, e positiva. Até porque tem muita gente que em vez de abraços ou carinhos quer mesmo é foder na frente dos outros para criar polêmica, e não é bem assim que a coisa anda… E com o tempo alguns vão saindo do armário, ou da bolha, do medo de assumirem o amor em público.Olha, eu devo dizer que não tenho problema nenhum com isso. Meu sonho é poder namorar, passear de mãos dadas, sou uma tristeza de tão romântico…😄 O único empecilho é que não acho ninguém. XDBlog favoritado. Ótimo texto, parabéns.

  6. Achei digno o texto, mas uma coisa que tem me preocupado muito é esse “Andar de mãos dadas nas ruas, mesmo das cidades pequenas, dar um beijo carinhoso no namorado no restaurante, abraçar a namorada na fila do cinema, apresentar o ficante como ficante mesmo, e não como ‘amigo’.” É preocupante ver o que tem acontecido aqui no Rio justamente por causa dessas pequenas ações. Da nojo de viver num lugar onde homossexualidade é vista como uma doença ou disturbio, graças ao que chamamos hoje de religião.

  7. Esses referidos gestos de afeto em público, com certeza trás um visão positiva para nós gays. O que de cara eu pensei foi o fato de alguns de nós, infelizmente, ir além desse afeto e pior, agir como se não estivesse em um lugar público. Grita, dança, obcenidades e roupas extravagantes… Pode parecer que estou sendo preconceituoso, mas não é por aí, sério. Sou um grande fã da cultura gay, do extravagante, da liberdade expressiva e da sensibilidade que nós gays temos, praticamente de natureza. Também não sou nenhum “arrumadinho e bonitinho que não curte afeminados” como uns que tem surgido por aí… Mas a questão, é que somos nós a menoria injustiçada. Não podemos simplesmente sair ás ruas e demonstrar os nossos gestos amorosos, enquanto o colega do lado está fazendo uma “barraca do beijo” em praça pública. De quem vocês acham que a velhinha que dá pipoca aos pombos vai lembrar; dos gays que estão no banco com seus gestos ou do gay que está “arrazando”?As coisas realmente não são fáceis, e penso que o nosso problema é mais interno do que com o resto da sociedade.

  8. Concordo plenamente com seu ponto de vista no que diz respeito à esses pequenos gestos. Acredito que uma pessoa não vai ter base para te agredir (fisica ou moralmente) se você demonstra estar totalmente seguro dos seus atos. O problema realmente são os gays que ao invés de se colocarem como ser humano, cidadão e além disso gay, colocam o fato de ser homossexual antes de tudo e acabam esteriotipando um gay que chega a ser cômico, como disse o Alexandre.Mais que isso, conheço casos de uma heterofobia absurda, gays que não conseguem sequer manter uma conversa com uma pessoa hétero que não seja a mãe ou a melhor amiga. Defende de maneira gritante os direitos gays e se isolam numa bolha ao mesmo tempo.Enfim, vivemos em tempos que não se assumir ou não aceitar a própria homossexualidade é algo doentio e deve ser tratado. Vejo esse assunto com visão otimista, creio que em breve esse ato de “sair do armário” será algo ainda mais simples e fácil, tanto pro indivíduo que se assume quanto pra sociedade que o cerca.

  9. Assino em baixo!

  10. Verdade!Como sair do armario, é importante, para que haja mudanças.

  11. Anonymous disse:

    Em minha opinião, um dos maiores desafios para a aceitação homossexual é a religião. É preciso que ela veja que as pessoas precisam viver com um amor e nao com uma mentira de uma pessoa gay viver como heterossexual.

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