Diversidade, em todos os sentidos

Não acreditamos mais em Zeus. Usamos a palavra mitologia para definir as crenças de muito tempo atrás. Aquelas das quais não fazem absolutamente nenhum sentido para o tempo presente. Agimos assim sem perceber o mecanismo da fé funcionando inerente a qualquer época, perpetuando a mesma ideia através de recursos simbólicos grosseiramente iguais aos de antigamente, e ainda sim olhamos para o nosso tempo como se ele fosse mais sagrado do que outro.

A percepção da fé como alegoria é fundamental para quem quer autonomia sobre ela. E o sistema da fé tem funcionado até hoje porque há quem o controle com autonomia, e há quem se submeta a ele com dependência. É um jogo de “sabe e não sabe” onde quem sabe sempre tem vantagem. Esse modelo se reproduz em diversos níveis. Por exemplo: é através desta autonomia – num nível primário – que é possível hoje, que desdenhemos da fé dos nossos antepassados primitivos.

Contudo, ter autonomia sobre a própria fé não significa necessariamente abandonar a crença, mas sim fazer um uso consciente dela. É mais ou menos como o usuário de cocaína que assume e reconhece o risco do vício e faz uso da droga com parcimônia tomando como principal cuidado a posição de “quem manda em quem”.

Talvez essa maturidade “espiritual” que institui o auto-respeito em relação as questões existenciais, imaginações, fantasias, desejos e esperanças, seja um caminho para entender a fé como uma experiência particular que tem reflexo no coletivo. É aquela velha história: só quem ama a si próprio é capaz de amar alguém. Quando somos capazes de ter certeza de que alguma fé merece contestação, isto pode ser um indício de que a nossa própria crença corre exatamente o mesmo risco. Ignorar ou se intimidar diante deste passo significa fechar os olhos para a história que a humanidade vem desenhando desde sempre. Além de fechar uma série de outros caminhos que poderiam estar abertos. E correr um enorme risco de participar do grupo dos fundamentalistas de conveniência.

A visibilidade LGBT tem esbarrado diretamente na fé cristã. E essa disputa por espaço na sociedade vem sendo vencida pela força da crença. Estes movimentos conflitam por que ambos buscam interferência coletiva. Os cristãos querem que a sociedade se mantenha refém dos preceitos cristãos, e os LGBT querem que a sociedade admita a convivência com a diversidade sexual (vejam a grande diferença de objetivos propostos neste texto).

Para o cristão, é questão de fé conquistar o espaço do outro. Para a lésbica, o gay, a(o) bissexual, a(o) travesti e a(o) transexual é questão de direito conquistar a participação na sociedade. Não há acordo que proporcione um ganho para ambas as partes: ou os cristãos admitem a convivência com LGBT’s (o que na prática significa o fim da disseminação da discriminação através da fé – do mesmo jeito que hoje não é possível vender sua filha através da bíblia – Êxodo 21:7), ou os LGBT’s admitem sua marginalidade, se resignando a não ter seus direitos assegurados, assumindo uma condição de cidadão de segunda categoria.

É uma ilusão sonhar com a possibilidade de que a conquista LGBT não interfere na fé cristã. Interfere sim e muito. Exatamente do mesmo jeito que a cristandade passou maus bocados para se adaptar a não discriminação por etnia, sendo que muitas seitas mantém suas doutrinas racistas, com uma imunidade calcada no que chamam de liberdade religiosa. A diferença é que hoje a conduta racista é socialmente condenável, e a conduta homofóbica, não. Será um tremendo golpe para a comunidade cristã, a admissão de que relações homoafetivas existem. Isto implica numa propaganda tão positiva do pecado que o torna praticamente irresistível a quem é homossexual e também a quem não é. É claro que isso não quer dizer que heterossexuais cristãos cairão na tentação do pecado do “homossexualismo”, mas sim que estarão mais expostos ao pecado da felicidade. E o pecado de ser feliz é uma ameaça gigantesca para quem acredita na salvação através do sofrimento e do sacrifício.

Diante deste duelo cabe a sociedade civil o julgamento. Cabe a este amontoado de gente, onde o cristianismo é amplamente bem representado, admitir o que é mais justo: o direito de discriminar ou o direito de não ser discriminado. E o caminho implica na exposição sincera de quem é o carrasco e de quem é o condenado. Nesse sen
tido, poupar esforços na denúncia em nome do medo da fé será uma covardia nada estratégica. É o que temos feito até hoje. E sem sucesso relevante.

O respeito é uma relação de equilíbrio de poder, e para tanto é fundamental uma postura austera e que saiba agir diante do embate. É preciso que saibamos tratar o que é mito, como o senso comum trata o mito sem perceber que Jesus e Zeus são exatamente a mesma coisa.
Ismael Ramos
Publicitário e ativista LGBT
Membro da Associação Arco-Íris de Joinville

Comentários em: "Quem manda em quem*" (1)

  1. Está muito bom o texto, bons argmentos, boa escrita, parabéns, contudo Joseph Campbell (Mitólogo!?) e Carl Gustav Jung (eminente psicólogo), apresentam bons argumentos no que tange a palavra mito e sua influencia sobre a psique humana. Dito de outra forma, as imagens primordias independem de crença para exercer influência. Logo, muitos de nós portam “conservas culturais”, cristãs e homofobicas mesmo não acreditando em tais religiões ou em Zeus, ou mesmo sendo homossexual. Ao rirmos de piadas machistas, ou naturalizarmos homofobias que passam despercebidas, somos coadjuvantes a estas influencias. Religião é uma tentativa extrovertida e coletiva de estreitar vínculos entre nossa consciência e o nosso incosciente tão distânciados pela construção da razão e aquisição da consciência, por isso tb produtora de neuroses e discordancias. Essa aproximação, promete felicidade e equilibrio psiquico, externalizado no imaginário da fé como salvação.Agora, tudo está dito acima de forma extremamente coerente, mas como argumento de reforço fica o seguinte: Como podem os religiosos quererm IMPOR sua FÉ como se fosse a ÚNICA verdade? E pior, querem CRISTALISAR ISSO EM LEI HUMANA, no ESTADO. O Estado não permite a livre crença? A liberdade de escolha de religião? Se permite, torna-se injustificável de ante-mão utilizar-se de argumentos de fé, para contrapor direitos aos cidadãos, já que se imponho uma constentação baseada em minha fé, e todos tem o direito de ter sua própria religião, não posso universalizar minha crença em lei, pois automaticamente destituiria ai um direito constitucional. Cidadãos de segunda categoria não na hora do dízimo…

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