Diversidade, em todos os sentidos

Arquivo para outubro, 2011

O divino direito de falar merda (ou Porque religiosos não entendem nada sobre gays)

O que se pede de um grupo de pessoas que participa de um debate? Quando é descompromissado, um debate pode envolver qualquer pessoa, de qualquer formação ou grau de instrução. Aquele bate-papo de bar, de ponto de ônibus, onde cada um fala o que quer, sem o compromisso nenhum com a veracidade ou a coerência dos argumentos. Mas, o que se pede em um debate técnico, científico?

De acordo com o e zoólogo, etnólogo e evolucionista inglês, Richard Dawkins, nossa sociedade se acostumou, de maneira muito cordial, com que as visões religiosas teriam algum direito automático e indiscutível a uma posição respeitável.

“Se eu quiser que alguém respeite meus pontos de vista sobre política, ciência e arte, terei que conquistar esse respeito por meio da argumentação, da justificação, da eloqüência ou do conhecimento relevante, (…) Porque não há limites para as opiniões religiosas? Por que nós temos que respeitá-las pela simples razão de que elas são religiosas?”, questiona o cientista.

A questão é muito relevante para o atual momento brasileiro. Por que pastores, padres e outros religiosos têm suas opiniões (ou dogmas) religiosas e validadas em áreas como psicologia, psiquiatria, sociologia e direito? Por que eles têm o direito (arduamente conquistado por outros) de debater em temas como direito dos homossexuais, casamento gay, leis contra a homofobia, se eles não tem os conhecimentos exigidos para discutir sobre os assuntos?

Em relação à homossexualidade, as opiniões de religiosos são especialmente levadas a sério. Pastores oferecem ‘curas e conversões’ de orientação sexual, mesmo que a psicologia e a psiquiatria garantam (com embasamento científico) de que orientação sexual é um processo complexo e não é passível de alteração. A Organização Mundial de Saúde, os conselhos federais de Medicina e de Psicologia, além de outras diversas entidades, proíbem tratamentos para mudança de orientação sexual, por não existir NENHUM indício em relação da eficácia dos mesmos, e que eles podem causar danos psicológicos severos.

Por que pastores, padres e outros religiosos têm de participar de mesas redondas, debates e comissões legislativas sobre casamento e união civil entre pessoas do mesmo sexo, se o único argumento e conhecimento para negar estes direitos são bíblicos e teológicos. Se as igrejas não são a favor a uniões entre gays, simplesmente não as celebrem, já que cada religião tem o direito de seguir os dogmas que achem mais convenientes. Mas a crença nestes dogmas não torna um religioso mais competente para discutir direitos constitucionais do que um pedreiro, um mecânico ou um engenheiro químico.

Em um país onde o fundamentalismo e o proselitismo religioso crescem assustadoramente e se enraízam nos espaços de poder, este tipo de intervenção (ignorante, no meu ponto de vista) será cada vez mais freqüente, e precisa ser cada vez mais combatido. O direito das religiões termina quando começam os direitos humanos, e ninguém tem o direito de interferir na vida de outrem por conta de seus preceitos religiosos. A discussão teológica sobre homossexualidade e os direitos dos homossexuais são válidos, mas devem ser considerados APENAS no âmbito teológico, e não, no âmbito legal e político. Afinal, o Irã (graças a deus), é bem longe daqui.

Entrevista exclusiva: Deputado Federal Jean Wyllys fala sobre homofobia

O deputado federal Jean Willys (Psol-RJ) passou por João Pessoa em setembro e pude conversar com ele. em entrevista exclusiva, durante cerca de 15 minutos. Apesar da conversa breve (e franca), conversei sobre homofobia e movimento LGBT. Confiram o material (com fotos de Cleide Teixeira). Ele também pode ser lido na edição desta quinta-feira do Jornal da Paraíba. :)

Como você avalia os números de assassinatos motivados por homofobia na Paraíba? Já foram 17 só neste ano.

Jean Wyllys - Estes dados comprovam uma tendência que as estatísticas frágeis comprovam de que os estados do Nordeste são estados com grandes índices de homofobia, a despeito de São Paulo, onde os crimes de homofobia têm crescido de forma assustadora. Isso acontece porque nos estados do Nordeste o machismo, o sexismo, a homofobia, vigoram com mais força do que nos estados do Sudeste. Nós lidamos com estatísticas precárias, a gente não tem um instrumento de avaliação dos crimes homofóbicos, apenas um levantamento que é feito pelo GGB com uma metodologia que não é precisa, enquanto a Secretaria de Direitos Humanos, através da Ministra Maria do Rosário vem tentando desenvolver estatísticas mais precisas com o Disk-100. O que eu posso avaliar em relação a estes crimes aqui na Paraíba é isso, a confirmação de uma tendência. É lamentável. A maioria das vítimas desses crimes são travestis e transexuais, confirmando outra tendência, de que o segmento mais vulnerável da comunidade LGBT são as transexuais, que já sofrem uma violência ao serem excluídas do mercado de trabalho e são empurradas deliberadamente para a prostituição. Elas se tornam vulneráveis ao tráfico internacional de pessoas, ao trabalho escravo sexual e a violência, seja por conta de quem alicia e explora o serviço delas, seja por quem freqüenta a noite.

 

Você acredita que hoje os casos de violência contra homossexuais estão mais comuns ou apenas estão sendo mais divulgados?

Jean Wyllys - As duas coisas. Os casos hoje são mais divulgados, já que a população tem mais instrumentos de divulgação desses crimes, como as redes sociais, o YouTube, os blogs, e antes a primazia da divulgação desses crimes era da imprensa. Hoje pessoas comuns podem fazer denúncias e servir até de fonte pra imprensa. Mas o número de crimes está aumentando como uma reação as conquistas da comunidade LGBT, que tem feitos conquistas significativas em termo de visibilidade, já que o Brasil é o país com maior número de Paradas Gays no mundo, temos as conferências LGBT em todo o país, a Conferência Nacional, etc. Estas conquistas têm provocado uma reação nos setores mais conservadores que tem respondido, não só com campanhas difamatórias, mas também com os crimes propriamente ditos.

 

Por que é tão difícil aprovar legislações específicas em relação aos direitos gays no Congresso? A PLC 122, chamada de lei contra a homofobia, por exemplo, não consegue avançar…

Jean Wyllys - Porque os direitos LGBTs fazem parte do que se convencionou chamar de ‘causas polêmicas’. Existem as causas unânimes, como os direitos das crianças, o meio ambiente, dos idosos, e destes, nenhum parlamentar pensa duas vezes antes de dizer, ainda que seja da boca pra fora, que são a favor.  Mas muitos deles se colocam publicamente contra a cidadania LGBT e esta é a principal dificuldade na aprovação de leis. A homossexualidade é tratada como uma questão moral e não como uma questão da violação de direitos humanos, de liberdades civis. Muita gente acha que é legitimo alguém perder direitos ou ser violados nos seus direitos humanos por ser homossexual e é o mesmo pensamento que já norteou, por exemplo, a violência contra os negros, contra as mulheres. Muita gente achou que era legítimo e ‘natural’ que as mulheres não votassem, porque elas seriam ‘naturalmente inferiores’, um pensamento que hoje e rechaçado por ser absurdo e que muito tempo foi sustentado por políticos. Já hoje, você vê que um pensamento como este é sustentado por vários parlamentares, inclusive por parlamentares aqui da Paraíba.

 

Você acredita que os parlamentares que aparecem criticando a luta dos homossexuais publicamente, como Jair Bolsonaro (PP-RJ) ou Marcos Feliciano (PRB-SP), querem apenas ganhar visibilidade com a polêmica?

Jean Wyllys - São oportunistas porque querem construir uma cortina de fumaça para que a população não preste atenção naquilo que interessa mesmo. Pra mim, o que deveria importar para a população são as igrejas neopentecostais gozarem de livre isenção fiscal e arrecadarem milhões de reais sem prestar contas a sociedade. Você viu que recentemente o Ministério Público de São Paulo ajuizou ação contra Edir Macedo (bispo da Igreja Universal e da TV Record) por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha. Você pode imaginar o quanto do dinheiro para saúde, segurança pública, educação já foi desviado nesta evasão de divisas por sonegação? Isso deveria ser de interesse da população. Mas quando você levanta a questão da homossexualidade como uma questão moral você cega a população para aquilo que realmente interessa. São caroneiros, oportunistas, que não tem uma agenda nem um conjunto de trabalhos para o Brasil e que aparece publicamente e ganham espaço rechaçando os direitos dos homossexuais.

Ficou alguma mágoa por você não ter tido apoio do Movimento LGBT durante sua campanha, que agora tanto reivindica em seu mandato?

Jean Wyllys - Não ficou nenhuma mágoa, os LGBTs não têm culpa de não apoiarem os seus quadros, da mesma maneira que as mulheres e negros não tem culpa de serem sub-representadas no Congresso Nacional. Mulheres, negros, indígenas e homossexuais são primeiro destruídos na relação que tem consigo mesmo. O primeiro sintoma para desarticular politicamente estes grupos é destruir a relação positiva que eles podem ter consigo mesmo e com seus semelhantes, fazendo com que os negros introjetem o racismo, que as mulheres introjetem o machismo, que os gays introjetem a homofobia. O fato dos LGBTs não votarem nos seus quadros é fruto desta homofobia internalizada, então não tenho nenhum tipo de mágoa por conta disso.

O Movimento LGBT nunca teve um representante legitimo, apesar de já ter tido deputadas e senadores que lutaram pelos direitos dos homossexuais. Você acredita que por conta disso os gays não gozam de tanta proteção do estado e que sua eleição pode ser um marco para os direitos gays no Brasil?

Jean Wyllys - Acho que os gays não gozam de tanta proteção do estado e de um conjunto de proposições legislativas e dispositivos legais que os protejam também por que não têm representantes e eles são incapazes neste momento de se organizar politicamente e eleger representantes que possam lutar por isso que eles não têm.  A comunidade gay existe e está inscrita na topografia das cidades e é constituída pela própria injúria de que ela é vítima. A injúria contra os homossexuais acaba construindo a homossexualidade no seu coletivo, e eles existem como um coletivo disperso, sem um projeto político em comum, e esta incapacidade de se juntar e traçar um projeto político em comum faz parte da estratégia do sistema para destruir a auto-estima das pessoas pra que elas não conquistem direitos. Guardando as devidas proporções, o mesmo acontece com os negros e com as mulheres. Não vou fazer um exercício de futurologia e dizer que serei este expoente. Eu sou apenas um militante dos direitos humanos e que acredita que podemos construir um mundo onde o bem de todos seja levado em conta, num estado democrático de direito, um estado de bem estar social que possa usar parte de sua riqueza para o bem do seu povo. Eu estou pensando no direito de expressão da sua identidade e do seu afeto, um povo rico não é só um povo sem pobreza, mas um povo livre para expressar suas diferentes identidades, suas diferenças. Não fui eleito pelo movimento e meu compromisso com o movimento passa apenas por aí, pelas causas em comum, não tenho outra aliança com o movimento que não seja essa. Respeito o movimento LGBT, acho que ele tem acertos e equívocos, e que sua principal tarefa, que era ampliar sua base social, ele não fez durante estes anos, então ele tem representação midiática, mas não tem base social. A tarefa de despertar a consciência no grande público LGBT não foi feita ainda, esta para ser feita e acho que minha atuação política colabora pra isso.

 

O polêmico pastor evangélico Silas Malafaia tem um discurso muito incisivo contra os direitos dos homossexuais e fala do risco da criação de  uma ‘ditadura gay’, após a aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo e da proposta de lei contra a homofobia. Você acredita que  este risco existe, ou, pelo contrário, há o risco de ter cada vez mais influência da igreja no Estado, com a eleição de deputados e senadores ligados a grupos religiosos?

Jean Wyllys - Vou citar as palavras do Pastor Ricardo Gondim, que eu respeito muito e que prova que o cristianismo tem quadros que são totalmente o contrário destes fundamentalistas: “Deus me livre de um Brasil evangélico”. Quando eu digo isso, eu digo de um país fundamentalista, que cerceia a liberdade de expressão, nossas manifestações culturais, que censure a nossa música, que transforme a TV num espaço de reprodução de seus dogmas. Neste sentido, corremos muito mais risco de termos uma ditadura fundamentalista cristã do que uma ditadura gay.

Porque eu não posso parar.

Eu não vou parar.

Eu nunca pensei em entrar, mas agora que eu entrei, não há deus, diabo, ou lâmpada fluorescente explodindo na minha cara que me fará sair.

Eu não vou parar. Eu não posso.

Não posso parar porque a próxima cara no asfalto cheia de sangue pode ser a minha, pode ser a cara do meu namorado, pode ser a cara de um amigo meu, pode ser a cara do meu pai.

Eu não posso parar porque outros já pararam.

Eu não posso parar porque muitos nem sabem que deviam ter começado.

E há tanto a se conquistar, tanto a se corrigir, tanto a se equiparar.

Ninguém deveria lutar pelo o que é seu de direito.

Ninguém deveria ser obrigado a se sentir menos humano, menos brasileiro, menos gente, menor.

Ninguém deveria ter o casamento negado, o compartilhar negado, os direitos negados, liberdade negada, a vida, enfim, negada.

Mas isso acontece.

Tem gente que é impedida de ser feliz.

Tem gente que é impedida de viver.

E isso me incomoda profundamente.

É por conta disso, desse incômodo, que eu não posso parar.

É por conta dos que pararam de lutar e pelos que ainda não começaram a batalha.

É pelo Alexandre Ivo e pelos moleques sem nome que morreram por serem como eram.

É por conta dos ‘viadinhos’, ‘bichinhas’, ‘travecos’, ‘mulheres-macho’, ‘sapatonas’.

É por conta de mim mesmo. E é por conta de todo mundo que precisa e por conta de quem nem sabe que precisa.

É por quem quer casar, por quem quer andar junto na rua, de mãos dadas, por quem quer dizer que é gay sem medo, é por quem quer, enfim, ser feliz.

O que dói nessas pessoas dói em mim.

Cada osso quebrado é um osso meu.

Cada ofensa é dirigida a mim.

Cada dia sem sossego desassossega a mim.

Não é pedir muito.

É pedir o justo.

É pedir o mínimo.

Não me sinto justiceiro de nada, nem me sinto bastião de uma causa.

Não quero fama, não quero dinheiro, não quero poder.

Quero paz. Pra mim e pros meus iguais.

Faço o pouco que faço, e farei até quando puder.

Faço o que posso na esperança de outros fazerem também,

E pra que um dia, eu olhe pro lado,

Veja um casal gay, despreocupado de tudo,

E preocupado apenas em ser feliz.

Até lá,

Eu não vou parar.

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